Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)


 

Discriminação e anti-semitismo

Marseille, cidade situada ao sul da França, considerada exemplo de respeito e concórdia entre suas diversas culturas e religiões, teve sua sinagoga incendiada no domingo de páscoa, sendo assim, palco de mais um entre vários atentados anti-semitas ocorridos no pais nos últimos dias.*

Contendo o maior numero de imigrantes arábico-muçulmanos da Europa, a França tem razão em redobrar as medidas de segurança em torno das sinagogas e instituições judias. Numa tentativa de erradicação do fanatismo, representantes de diferentes religiões reuniram-se para discutir o problema e ressaltaram que os jovens que praticam tais barbáries são de origem muçulmana, mas, distanciados de tal educação, reúnem-se clandestinamente para cultivar o obscurantismo e o ressentimento a partir da situação palestina e agem pela necessidade de vingar os irmãos islamitas e palestinos. Assim sendo, as violências anti-semitas, ocorridas nos últimos dois anos, têm sempre relação direta com os acontecimentos internacionais.

Se ficamos atônitos ao vermos, no oriente médio e próximo, kamikasis de treze anos além de jovens deprimidos e fatalistas, devemos também observar que os efeitos ultrapassam nações e atingem até mesmo os que não têm noção exata disso tudo. Refiro-me a inúmeros adolescentes e crianças que crescem protegidos da guerra pelas fronteiras do hexágono, mas são bombardeados pelos próprios colegas, que os discriminam, nos lugares onde moram e até mesmo dentro de suas próprias escolas.

É difícil ser diferente em qualquer época, e quase impossível nessa idade, quando são atingidos pelos mísseis dos que não conseguem admitir desigualdades culturais e religiosas. Seguindo ordinariamente a lógica onde a maioria vence, esses imigrantes devem adaptar-se ao sistema e cederem à morte de suas origens, pois, psicologicamente afetados, não encontram forças para protestarem.

Apesar de estar havendo algumas passeatas contra esses acontecimentos, e de algumas escolas estarem dispostas a promoverem palestras conscientizando os alunos das diferenças existentes, a questão da discriminação aumenta a olhos vistos por toda a França (e porque não Europa?), gerando ódio e rancor entre os habitantes da mesma nação, que buscam a liberdade sem saber o que é igualdade e desprezando a fraternidade. Que bom se o mundo tomasse consciência de que a violência, seja ela direta ou indireta, origina verdadeiros monstros capazes de atos hediondos. O homem tem cultivado a insensibilidade no coração, como defesa, para que surjam "corajosos" que propaguem a guerra ainda que clamem pela paz jamais conhecida.

*Atentados anti-semitas ocorridos nos últimos dias na França: agressão contra a sinagoga de La Duchère, em Lyon; tiros em um açougue em Toulouse; destruição das portas da sinagoga de Cronenbourg em Strasbourg; agressão à um jovem casal judeu em Villeurbanne; incêndio de dois veículos de uma escola judia em Aubervilliers; ataque a uma sinagoga em Montpellier; incêndio a um cemitério judeu em Strasbourg.

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     


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