Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista e p
rofessor da UEM

 

O Big Brother: a invasão e evasão de privacidade na TV (II)

 

"Quem assiste televisão é assistido por ela" (Décio Pignatari)
 

A chamada tv aberta vem investindo pesado no olhar gozozo do telespectador. Para garantir uma grande audiência - ou a sua sobrevivência -  esse tipo de tv não demanda um telespectador que vive guiado pelo efeito zapping, é preciso que ele entregue totalmente o seu olhar a telinha, como que tivesse hipnotizado, onde o tempo parece não passar.

Na falta de algo melhor para se ver, simplesmente pode-se deixar o aparelho ligado de um programa para outro. Deixa estar. Marina Colassanti certa vez escreveu um texto "eu sei que não devia, mas..." . Eu sei que não devia deixar meus filhos assistirem tanto Pokemon, eu sei que não devia assistir tanato tempo tv, mas... a televisão nos relaxa, nos faz entrar em tantos lugares do mundo, nos oferece uma fantasia pronta, mágica, fantástica... como um sonho bom.

Parece ser muito simplista aquela posição que coloca a culpa de tamanha audiência de certos programas televisivos (também de certas igrejas) na baixa educação do povo. É preciso analisar a aeticidade do espírito capitalista selvagem que comanda a mídia nacional como também entender porquê faz sucesso no ser humano: sexo, violência e bisbilhotagem da vida alheia. Há ainda que convocar os intelectuais que sempre procuraram manter distância da tv, a ir para além de analisar a fundo esse potente veículo da indústria cultural. Lembro-me de nos anos 70, época mais pesada da ditadura militar quando colegas de esquerda proibiam seus filhos de assistirem televisão, porque quem dominava era a Globo e os enlatados norte-americanos. Os intelectuais de hoje já admitem assistirem tv (principalmente tendem a assistir tv por assinatura, se bem que há ainda alguns que enchem a boca e dizem que não assistem tv, confundindo assim o veículo com a programação, ou seja, uma "coisa" ruim, do mal ou diabólica).

Ainda é mal visto no meio acadêmico alguém que participa dos programas da mídia, dando asserrorias como participando de debates, etc. Basta ler os depoimentos de P. Bourdieu, entre outros intelectuais, o quanto criticam esses que ou querem simplesmente aparecer na mídia ou acham que o conhecimento científico e filosófico devem ser socializados e, alguém precisa fazer esse papel. Não tomar essa iniciativa é ser cúmplice do elitismo acadêmico ou intelectual. Certa vez ouvi um importante psicanalista dizer que a psicanálise era um saber muito fino para ser oferecido ao povo. Ou seja, basta substituir psicanálise por outro saber nesse pensamento ativo e teremos, por um lado, um plus de elitização psicanalítica de consultóiros e instiuições e, por outro, pessoas carentes não só de comida, mas também de auto-conhecimento. 

Da mesma forma, intelectuais tomados pelo vírus academicus,  se negaram em criar alternativas, inventar programas mais inteligentes para tv e coisas assim. Nesse vazio psicopedagógico é que surgiram as Xuxas, as Elianas, etc. conduzindo mais que programas infantis, a própria educação delas. Há ainda um verdadeiro ódio ou ressentimento - principalmente da esquerda - quanto a televisão, que é sobretudo um veículo que sabe se comunicar com a massa. Não podemos nos esquecer que milhares de brasileiros iletrados tiveram conhecimento de alguma obra da literatura nacional e mundial, vendo esse na telinha. Claro, são linguagens diferentes, a escrita parece ser mais rica do que a imagem, mas ainda assim é melhor que nada. É melhor conhecer alguma obra via imagem de Jorge Amado, de Érico Veríssimo, ou de Dostoievski, do que ser ignorante delas totalmente.

 

Se até a loucura porta um sentido, por que não desvelá-los nos programas banais da televisão?

O Big Brother Brasil (BBB) e Casa dos Artistas, pode ser lido para além do ato compulsivo crítico, ou seja, podemos extrair deles algumas lições de Psicologia Social: de como as pessoas tem dificuldade de conviverem juntas, de como é difícil a comunicação entre pessoas, o estresse da convivência diária que lembra qualquer convivência familiar ou entre colegas de trabalho, a invenção de códigos para preservar um mínimo de privacidade entre os membros, a formação de sub-grupos ou "panelinhas" de sobrevivência social, as diferenças de se conduzir como líder etc. Ou seja, pode ser  um realismo ficcionado, possivelmente pré-combinado como se fosse uma peça de teatro, mas sem dúvida, além de despertar o prazer-gozo de olhar pessoas, cenas e cenários, podemos ter um olhar treinado para discernir, interpretar, deduzir, identificar estas com outras mais reais. Em outras palavras, algo tomado como  sem sentido ou o banal, às vezes é assim visto por alguém não treinado ou com má vontade de elaborar uma interpretação pertinente.

Pode-se interpretar que, há uma tendência dos atuais programas de tv aberta de invasão e evasão do que é  privado. Tanto a invasão como a  evasão da privacidade é um bom negócio, no primeiro caso para os donos e empregados da programação, e, segundo, no caso da "evasão", para quem deseja participar dela oferendo o que tem como valor de troca. No caso do reality shows, as pessoas se ofereceram  participar mais como meio de ascensão social, de obter no futuro próximo fama, prestígio para participar de uma novela, ficar famoso, etc, que pelos 500 mil do final. É preciso saber jogar muito bem o jogo da sobrevivência  darwiniana naquela casa. Cada um está de olho no outro - seu rival -, de olho no grupo deve se manter unido, mas até o limite dos interesses individuais e se autocontrolar ao máximo, reristindo as provocações e tensões imperativas da convivência artificial. O participante que se sair menos pior em virtudes ou em moral é elevado pela mídia como se fosse um herdeiro da moral de Kant, mas se passar de um certo limite moralmente inaceitável,  como aconteceu com a Xaiane e a Cris, o grupo e o público tendem a excomungar a pessoa da casa.

Suspeito que há alguma coisa de comum na grande audiência por esses programas e no grande número de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus ou outra religião que sabe fazer show da fé de faz de conta. Dizer que a alta audiência se explica pela baixa educação da população é fazer opinião. A opinião não é episteme, ou seja, não é conhecimento mais elaborado ou racional; a opinião  apenas revela a posição ainda não firme do sujeito   A opinião não deve ser jogada fora, mas podemos tomá-la como ponto de partida para a elaboração de  um raciocínio aproximado do científico.

Existe algo mais que precisamos estudar nesse tipo de programa televisivo - mesmo a chamada "tv lixo" - e que até o momento tem escapado das poucas teorias e dos debates, ambos paradigmáticos. Também não podemos deixar de reconhecer aí um amplo e variado leque de manifestações emocionais e afetivas, que parece manter uma relação com os nossos instintos mais primitivos. Alguém disse que no fundo, quando se trata de nos relacionarmos socialmente, ainda somos muito territorialistas. Ou seja, se alguém invade o nosso espaço psicológico, reagimos como bicho, literalmente.  (Já que a política cada vez mais nos decepciona, talvez é por isso que a  religião é buscada como tábua de salvação para a nossa solidão, nossos maiores desesperos e desencantos com a vida que levamos).

Não foi sem sentido que Freud reconhecia que o negativo das neuroses era a perversão.  O ser humano - alguns mais que outros - gozam em ver outros através do buraco da fechadura, que a psicopatologia chama de voyerismo. A onda despudorada dos programas lixos ou baixaria e as caras produções dos  reality shows, tem-se a impressão que há uma autorização radical para que nossa perversão latente se manifeste, sem o medo de pecado ou de culpa. Não foi sem motivo que a logomarca de Casa dos Artistas é um buraco de fechadura e do Big Brother, da Globo, é uma lente que esconde um olho. É como se divulgasse a todos: tranquem sua moral e soltem sua perversão, sem limites e nada vai acontecer de punição. Embora a tv divulgue estar mostrando toda a privacidade de pessoas que querem aparecer - foram mais de 500 mil inscritos para o Big Brother - desde já, deveríamos nos precaver de um futuro não muito longe onde não teremos mais nada para ver. Um futuro próximo cuja dimensão sadia de apreciar as coisas do mundo morreu, porque teríamos perdido o bom senso no limite do olhar. Se hoje, esse tipo de programa "gratifica" personalidades perversas tornado-as compulsivas 24 horas presas na telinha, como serão essas e outras no futuro? O olhar viraria  uma patologia?   

O mesmo acontece com as mulheres expostas principalmente na televisão. A sexualidade é tão massificada nas telinhas que "que no fundo não tem mais nada de sexual", analisou Jean Baudrillard. Ou como insinuou Jabor: há tantas superbundas e seios siliconados na televisão que nossos pintinhos  não conseguem ter tesão nesse rítmo que aparentemente é só desejo.

As mulheres que parecem plenamente livres na mídia, na vida real ainda são usadas, reprimidas, maltratadas e não são totalmente reconhecidas na sua capacidade pelo machismo velado do mundo ocidental. (por exemplo, as top models, salvo as famosas, são despossuídas de seus nomes para dar lugar as roupas de griffes). Nossa moral cristã ainda faz um desconto especial ao homem visto em cenas de sedução ou pré-cópula do que uma mulher. No BBB personagem Xaiane, do BBB, foi considerada volúvel, vulgar, falsa, aquela que quis usar o Kleber mas terminou se dando mal. A imagem do Kleber talvez saiu ganhando mais com as cenas de sedução que ela, que pagou com a desclassificação, a humilhação e uma imagem de mulher vulgar ou volúvel.

Comparando as culturas e a moral do Brasil e os EUA: enquanto que os resquícios da moral puritana deles criticava duramente o então presidente Clinton pelos casos de assédio sexual, no Brasil, a imagem do Itamar, teria saído reforçada com mais pontos de masculinidade quando a imprensa divulgou imagens de uma moça, sua acompanhante, que dançava sem calcinha no seu camarote. Nosso reality show, era alí inaugurado em alto escalão, sem nos darmos conta sobre qual era a moral do político e qual é o sentido da ética do povo que o aplaudia.

*        *        *

Nossa televisão, nossa gente...

Nossa televisão aberta investe nas obviedades, reforça o culto ao belo, promove a estética grotesca e o assistencialismo rasteiro. O formato de seus programas não autoriza espaço para o pensamento mais elaborado e mais sofisticado, salvo depois das 23 horas e  nas tvs por assinatura. Programas como o Jô Soares, Roda Viva,  Observatório da Imprensa, esses dois da Tv Cultura de São Paulo, uma televisão pública, vão ao ar depois das 22, 23 horas. Ocorre esse fato, ou porque o "homem televisivo" é meramente visual, carecendo de inteligência, ou é porque a tv que aí está parte do pressuposto de que seu papel não é o de educar ou elevar a cultura do telespectador, mas ao contrário, imbecibilizá-lo.

A tv é um lugar de exibição narcísica. A tv é uma máquina narcísica que fabrica narcisos. Nela, vemos e somos vistos; artistas e mesmo intelectuais aparecem mais para serem vistos que para exporem idéias. Dominado mais pela estética que pela preocupação de conteúdo, sobretudo carente de eticidade, é que a televisão termina resvalando pelo mesmismo das fórmulas repetidas e copiadas, do assunto imposto, do pequeno tempo para exposição de assuntos complexos e interesses cada vez mais da audiência pelo lucro. Por isso que, P. Bourdieu, acha que a tv - enquanto veículo - não serve para se dizer idéias e tratar certos assuntos com profundidade e seriedade.

Personagem da tv gastam tanto tempo em blá-blá-blá em assuntos de lugar comum e com pessoas vazias de conteúdo, sobrando pouco espaço para tratar de assuntos substanciosos e personagens que são exemplos de vida. Se contarmos quanto tempo nela é dedicado para temas ligados a educação do pensamento, da saúde e dos costumes e quanto tempo é usado para a exposição de rostos bonitos, bundas, seios silicionados, jogos, junto com a alienação do lugares comuns do discurso religioso nas madrugadas, teremos o prognóstico não só da moral da televisão, mas do futuro da nação.

 

Sem nenhum psicologismo, não podemos deixar de reconhecer que a publicidade, a propaganda, os programas infantis, os filmes de crianças e adultos e, até certo tipo de jornalismo, fazem sucesso porquê se aproveitam de nossas pulsões anarquistas mais primitivas e perversas; estas servem para responder mais a estética que a ética. Servem para curtir o prazer gozozo e sem limites, que a coisa chata da obrigação de pensar, de discutir, de discernir o joio do trigo. Somos reféns de nossas pulsões, no sentido freudiano, que nos empurra mais para o sexo que para o amor, mais para a violência que para a paz, mais a quantidade de estímulos visuais sedutores que pela qualidade de programação, enfim, os dominantes da mídia sabem porquê investem mais em ilusão que em verdade. Não que o ser humano não precise de ilusão para realizar suas demandas e enganar seus desejos, mas é necessário fazer a crítica do efeito da manipulação ideológica cuja pretensão é substituir a realidade pela ilusão. Dito de outro modo, ao oferecer o circo como substituto da necessidade de pão, a ideologia que rege a televisão, acredita que as pessoas demandam viver mais de ilusão que de realidade.

O reality show pode ter uma vida curta como qualquer programa de tv que vive de delírio de grandeza num primeiro momento de sucesso para algum tempo depois cair na repetição do mesmo ou do desgaste da fórmula, mas precisamos ver para analisa-lo como um fenômeno psicossocial, político, cultural, etc.

O diplomada Osvaldo Aranha teria dito certa vez "não vi e não gostei". Infelizmente muitos intelectuais tem essa posição que prima pela ignorância.  Os programas "tv realidade" e " lixo tv" (Big Brother, Casa dos Artistas, Ratinho, João Kleber, etc) deveriam ser vistos, mas não para "meter o pau" nem para "aprender a gostar" de banalidades ou se lamentar pelo tempo perdido. Sabemos que tais programas funcionam como drogas, viciando a que os assiste e expurgando o pensamento crítico. Mas, assistí0-los é mais uma obrigação de análise e preparo para melhorar seu ato educativos com os incautos.

Antes de tudo, devemos ficar alertas para o verdadeiro big brother (falo da ficção "1984", de George Orwel) que é o império das redes de comunicação como é a própria televisão regendo nossas vidas e nos pressionando a abandonar o nosso e ser o desejo deles.

RAYMUNDO DE LIMA

     


http://www.espacoacademico.com.br/ - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados