Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na Universidade Estadual de Maringá e autor de História das Tendências no Brasil

 

Memórias de um lulista desapontado

Para Henrique e Anito (metalúrgicos e dirigentes sindicais) - In memoriam

A política é um esforço tenaz e enérgico para atravessar grossas vigas de madeira. Tal esforço exige, a um tempo, paixão e senso de proporções. É perfeitamente exato dizer – e toda a experiência histórica o confirma – que não se teria jamais atingido o possível, se não se houvesse tentado o impossível. (Max Weber)

 

Bons tempos aqueles. É certo que vivíamos sob a ditadura militar e a liberdade dependia de uma luta permanente. Embora o poder repressivo ocupasse as praças e ruas, os ventos democráticos solapavam seus alicerces. Logo, a odiosa noite iniciada nos idos de 1964 daria lugar às luzes que iluminavam o longo e tortuoso caminho dos que imaginam poder revolucionar o mundo.

Gerações diferentes se reuniam e, caminhando de mãos dadas e entoando Prá não dizer que não falei das flores, desafiavam todos os despotismos. No Estádio da Vila Euclides, a esperança prenhe nos corações daqueles milhares de operários que se apinhavam no campo, pelas arquibancadas e redondezas. Todos esperavam o grande momento, o clímax: a fala do Lula. Sua voz atravessava nossos corações e mentes, reconfortava-nos e dava-nos a certeza de que a nossa luta era justa. A história estava ao alcance das nossas mãos. Sonhávamos e víamos não apenas as nossas reivindicações atendidas: era um novo país que construíamos, um país com liberdade, igualdade e justiça.

Era apenas um jovem. Quantos da minha geração não se encantaram com aquela voz e não sonharam o mesmo sonho? Aquela multidão galvanizada pelo discurso carismático do Lula, o sentimento de poder – nós, simples trabalhadores, enfrentávamos os poderosos das multinacionais e seu governo e desafiávamos todo o aparato repressivo do Estado. Para a nossa geração, sem qualquer experiência política anterior, esse era o ritual de iniciação. O PT foi para nós um desaguadouro natural para onde canalizamos todas as nossas energias e sonhos.

Radical e contestatório da ordem, o PT expressava o instrumento da nossa utopia, a chama da esperança que teimava em se manter acesa. Segundo Weber, um ilustre desconhecido para mim naquela época: Há duas maneiras de fazer política. Ou se vive “para” a política ou se vive "da" política. Não há aqui uma oposição. Em geral, se fazem uma e outra coisa ao mesmo tempo, tanto idealmente quanto na prática.[1]

Hoje tudo isto me parece muito claro. Mas, aqueles não eram tempos para teorizações. Tratava-se simplesmente de agir e de não perder o trem da história. Éramos idealistas, fazíamos política por vocação. Para nós, a política não era fonte de renda, não pensávamos em viver dela. Vivíamos para a política. Éramos os convertidos com causa.

Não, não era fácil. Os preconceitos contra a política e tudo que aparentasse petismo era enorme. A fase obreirista dos primeiros tempos alimentava o preconceito. Recordo-me da campanha eleitoral de 1982: éramos nós contra os patrões; nossos candidatos eram ex-alguma coisa; era um frisson ser operário ou ex-operário. Quebramos a cara com um ex-operário que elegemos para vereador e era um capeta. Nosso realismo socialista exprimia o apologismo aos trabalhadores manuais. Tínhamos aversão aos intelectuais - em certos casos, justificável.

Também tínhamos que enfrentar o anti-comunismo, enrustido ou explícito, de muitos companheiros que viam com maus olhos a simples aproximação com pessoas sabidamente comunistas. Cuidado, ele é comunista!, diziam - e, assim, aguçavam a curiosidade. Tão logo surgiram as primeiras divergências e a rebeldia contra o pensamento predominante – sim, também à esquerda temos os cultuadores de um pensamento único – não faltaram os rótulos. Os caçadores de bruxas vigiavam nossos passos, com quem falávamos, em quem votávamos nas convenções e encontros partidários. A simples simpatia por alguma proposta à esquerda era suficiente para alimentar os fuxicos. Se não havia a fogueira para castigar a heresia, havia o isolamento, com a anulação das oportunidades, o fechar das portas, a perseguição pelos que ardiam em suas fogueiras das vaidades. Certa vez, um destes inquisidores me chamou à sua sala e, de forma imperial, disse: Não, você não vai fazer este curso.O escolhido é outro. Caiu por terra o sonho de conhecer o socialismo real. Pensando bem, talvez este Torquemada de plantão tenha feito um bem.

Recordemos que os militares intervieram no sindicato e quando este foi recuperado pelos trabalhadores ascendeu uma nova geração. Lembro de muitos deles: alguns se tornaram famosos na política – deputados, dirigentes importantes; outros, talvez não agraciados pelos deuses ou inábeis na arte de fazer política, perderam-se pelo caminho, caíram na obscuridade e no alcoolismo; há os que, infelizmente, faleceram.

Nestes anos, a admiração pelo líder se manteve intacta. Ele já não era o presidente do poderoso Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, mas sempre estava por lá e participava das reuniões da diretoria na mesma qualidade dos demais. Admirava-me sua postura equilibrada e conseqüente, sua capacidade de liderança. Por outro lado, repugnava-me a multidão de bajuladores em sua volta. Com receio de ser confundido com os puxa-sacos de sempre, afastava-me e observava-o à distância. Ainda hoje os estrelimos me causam ojeriza. Bem disse o bardo inglês: Quem gosta de ser adulado é digno do adulador.

É verdade que decepcionei-me quando no julgamento do herege ele se manteve neutro e legitimou a santa inquisição. Foi um processo político, cheio de fofocas, intrigas. Não, não o jogaram na fogueira, apenas deixaram claro que ele estava politicamente queimado e isolado. Tiraram-lhe os meios de fazer política e ele teve que recomeçar sua vida. Anos depois há quem se pergunte como se deixou envolver naquele clima e acreditou em acusações tão absurdas, motivadas por sentimentos egoístas e míseros.

As adversidades não diminuíram a capacidade de sonhar nem a admiração pelo Companheiro Lula. Como muitos, chorei com a derrota de 1989. O sonho quase se tornou realidade – ao menos perdemos o medo de ser feliz. Não foi menos doloroso vê-lo derrotado pelo príncipe da sociologia – e quis o destino que eu compartilhasse com este a formação acadêmica. Mais uma decepção: desta vez com meus professores que, a despeito de se afirmarem mais marxistas do que Marx, eram de um anti-lulismo incompreensível (ficaram com Brizola em 89 e com FHC depois).

Identificado com o líder, suas derrotas foram as minhas derrotas. Mas, já então, o idealismo viu-se obrigado a dialogar com a razão. A decepção com o governo Erundina foi a gota d’ água: tornara-se impossível continuar petista, porque tornara-se difícil defendê-lo. Quando se faz política por vocação é preciso uma certa dose de messianismo: é preciso acreditar de uma forma quase religiosa. Quando os instrumentos de que nos valemos para atingir nossos sonhos não nos servem, ou os abandonamos ou destruímos os sonhos. Optei por continuar sendo um sonhador - ou, nas belas palavras de Rubem Alves, um cultivador de jardins.

Observe-se que o desencantamento tem como objeto a política partidária, e não a política em si. A organização, que era um meio, transformou-se no fim. As organizações partidárias são construções humanas. Se elas degeneram, isto não ocorre por alguma fatalidade. G. MaringoniA causa está na corrupção dos homens – estes apegam-se ao imediatismo, abandonam seus sonhos, pensam a política apenas sob a ótica do possível e renegam a utopia.

Bons tempos aqueles em que Lula ia às portas das fábricas falar em Terra, Trabalho e Liberdade (a Plataforma Eleitoral do PT). Sua mensagem era claramente classista. Hoje retorna às fábricas pelas mãos do bom patrão. Se, como afirma a propaganda liberal, o Brasil precisa de um patrão como este, talvez o mais coerente seja dar-lhe a tarefa de administrar esta grande empresa chamada "Brasil" e que Lula seja seu vice - um gerente de confiança. Por que esta ânsia lulista em ser aceito pelo empresariado? Seria a aliança com o PL um argumento a mais para convencê-los de que Lula civilizou-se?

Bons tempos aqueles em que o hoje deputado Medeiros usava os meios inteligentemente fornecidos pela grande imprensa para atacar o sindicalista Lula, que teria se deixado corromper pelos atrativos da política; o mesmo Medeiros que organizou a Força Sindical, com o apoio dos empresários, contra a central cutista. A mesma Força Sindical que apóia a flexibilização da CLT; enquanto a central cutista, que já foi chamada, erroneamente, de petista, recusa-a.

Bons tempos aqueles em que Lula não se rendia aos marketeiros ilusionistas. Recusava o fácil caminho da mentira como estratégia publicitária, das promessas eleitoreiras, mágicas que reduzem todos os políticos e partidos ao mesmo patamar e que não se sustenta no período pós-eleitoral. Apenas amplia-se o descrédito do povo com a política e os políticos. Olhemos para a Argentina! Adentramos no âmbito do vale tudo. Convocamos os que até ontem disseminaram peças publicitárias que reforçavam o preconceito sócio-cultural contra o "analfabeto Lula" e contra o PT; os que contribuem para a fascitização da sociedade brasileira reforçando seu viés autoritário - e até mesmo convencendo ex-guerrilheiros petistas da necessidade da ROTA.

E como esquecer os bispos da Igreja Universal que tanto contribuíram para acirrar ódios, suspeitas e intolerâncias contra Lula e o PT. Como esquecer a campanha retrógada e inquisitorial dos profetas da ordem contra o demônio barbudo e o perigo comunista? Mudou Lula ou mudaram Medeiros e os bispos da Igreja Universal? Ou tudo é um jogo de faz-de-conta?

Bons tempos aquele em que Lula não precisava se expor para explicar alianças espúrias, em que não necessitava fazer ameaças veladas - caso o conjunto partidário não acate a sua lógica aliancista. Nenhum partido tem chances de vencer sozinho, declara Lula com a simplicidade de uma criança. Seu contorcionismo atenta contra a inteligência das pessoas. A questão essencial é: vencer para quê? Com qual programa político? Com tais companhias, Um outro Brasil é possível? Se for para repetir o fenômeno De la Rua, melhor que eles vençam; farão melhor o que já fazem secularmente.

A imposição da verticalização das coligações políticas salvou Lula e o PT do desastre de imporem, pelo rolo compressor da máquina partidária, tais alianças. Mas, não olvidemos suas falas e atos. Bons tempos aqueles em que a Lula se preocupava mais em convencer os trabalhadores de que é possível romper com tudo isso que está aí e não tinha tanta sofreguidão em se aliar com certos liberais, religiosos suspeitos e a elite empresarial.

Bons tempos aqueles em que Lula não tinha concorrentes internos - embora ainda aja como se não tivesse (basta observar a importância que ele e a maioria da direção petista dá à candidatura do senador Eduardo Suplicy). Alias, não seria melhor tentar outra opção? E se Lula tivesse um gesto nobre e abandonasse a disputa? Será que não temos outro candidato petista à altura da disputa? Mesmo admitindo-se os argumentos lulistas – da necessidade de ampliar cada vez as alianças e que isso seja determinante para ganhar as eleições – fica a pergunta: será que uma vitória a qualquer custo não é pior do que a derrota eleitoral? Ou a política se resume apenas a ganhar ou perder eleições?

Outro dia, vendo uma reportagem na TV sobre o Lula e suas negociações com o PL, fiquei extasiado ao perceber o tempo passado. Como ele mudou!,pensei. Mudamos todos. Tive saudades daqueles tempos da Vila Euclides, da Rua João Basso, da Igreja Matriz de São Bernardo, dos que conheci nas salas e corredores do Sindicato dos Metalúrgicos, nas portas das fábricas, nos bares da vida; tive saudades daquele jovem deslumbrado com o carisma do Lula sindicalista. Agradeço-lhe por ter me proporcionado esta experiência.

O entusiasmo com o líder e o PT mitigou-se, mas continuo acreditando naquele sonho. De qualquer forma, sei que estou condenado a sofrer a quarta derrota eleitoral - e, com Lula. Oxalá, seja tudo um equívoco da minha imaginação. No fundo, ainda sonho em vê-lo na presidência deste imenso país. Freud explica...

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Notas:

1 - Todas as citações são de: WEBER, Max. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo, Cultrix, 1993.

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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