Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na Universidade Estadual de Maringá e autor de História das Tendências no Brasil

 

Crônica sobre o Fórum Social Mundial

 

O Fórum Social Mundial foi criticado pelo lado festivo e alegre que uma agregação deste tipo promove. E quem disse que esquerda é sinônimo de sisudez? É verdade que a militância de esquerda é comumente identificada com comportamentos caracterizados pela seriedade além da conta e mesmo por uma disciplina militarista. Mas, a bem da verdade, chatos e mal-humorados existem em toda parte: não é uma particularidade que defina a esquerda, nem é patrimônio nosso. Como em todos os campos das atividades humanas, há quem se comporte de uma maneira que justifique tais críticas. São os cavaleiros do apocalipse, cuja austeridade se assemelha à fé puritana. Exigem uma devoção à causa nem sempre coerentes com os comportamentos individuais. Suas conversas beiram a chatice própria dos monólogos sobre teorias tidas como verdades absolutas a priori. Com discursos prontos, fazem de conta que dialogam. Leitores de um só autor, têm horror a tudo que expresse dúvida. Suas certezas são como uma tábua de salvação.

Nem tudo é tão grave quanto os salvadores da humanidade imaginam. O Fórum Social Mundial também teve o seu lado exótico e pitoresco. Afinal, é do humano que se trata. Uns chamavam a atenção, até mesmo dos fotógrafos, pela fantasia que usavam. Foi o caso de um senhor que representou o mosquito da dengue e fez uma crítica bem-humorada ao presidenciável José Serra.

Numa das oficinas, com a sala completamente lotada, mas com muita gente querendo entrar, chegou-se ao seguinte impasse: manter a porta aberta ou fechada? Fechá-la, logo decidiu um desses militantes aguerridos que, sem contrangimento, assumiu o papel de porteiro. Ouviram-se algumas vozes descontentes, mas corajosas, que ousavam desafiar o nosso porteiro. Quase que se instaurou uma polêmica. Sem delongas, ele informou que era preciso que assim fosse para que a sala tivesse o mínimo de conforto, já que o ar condicionado funcionaria a contento. E assim ficou...

As atenções voltaram-se para os palestrantes. Contudo, talvez porque o calor persistisse - a despeito da porta fechada e do ar condicionado -, talvez pela superlotação da sala, talvez porque descobrissem que temas e oradores não correspondiam às expectativas, vez ou outra alguém levantava e com dificuldade, quase que pisando nas pessoas estendidas no chão, se dirigiam à porta para sair. Lá, encontravam nosso inflexível companheiro que informava à pessoa que ela não poderia sair naquele momento, que esperasse mais um pouco. Se a pessoa retrucava, ele argumentava que tudo aquilo era pelo bom desenvolvimento dos trabalhos, que se abrisse a porta muitos dos que estavam fora iriam querer adentrar e que estes movimentos de entra e sai atrapalhavam os trabalhos. Uma senhora não ousou retrucar e esperou até que o porteiro permitisse a sua saída (apenas quando terminou a intervenção de um dos membros da mesa). Alguém pediu ao companheiro que deixasse a porta livre. Ele se manteve impassível.

Logo outro ouvinte levantou-se e dirigiu-se à porta. Foi barrado! Os mesmos argumentos foram repetidos. Dessa vez, o nosso porteiro teve bom senso e permitiu a saída. É bem provável que a estatura do seu oponente tenha contribuído para tal decisão: o homem parecia ter saído daqueles filmes de gladiadores.

Aquilo já estava constrangendo algumas pessoas da platéia. De repente, um dos organizadores da oficina caminhou até a porta, sempre com cuidado para não pisar nos que estavam sentados no chão. Alguns devem ter imaginado que ele iria convencer o nosso porteiro a desistir de tal função. Não, ele foi ajudá-lo: a porta permaneceu fechada e, agora, com dois porteiros, um do lado de fora e outro dentro. Ironicamente o tema discutido era a democracia!

Noutra oficina, após as longas falações dos diversos membros da mesa, abriu-se - finalmente! - a inscrição para a platéia. Um jovem pediu a palavra e teceu vários comentários sobre o papel revolucionário da juventude e inquiria os participantes da mesa a se pronunciarem. Quando a palavra retornou aos oradores, alguém respeitosamente tocou no tema levantado pelo jovem. Este estava literalmente roncando. Alguém brincou: eis a revolução adormecida!

De outra feita, após ouvir cerca de dez pessoas, falando em média 15 minutos cada, alguns extrapolando o tempo, a coordenação dos trabalhos abriu a palavra ao público e informou que a intervenção dos inscritos deveria respeitar o tempo de um a três minutos. Gerou-se uma polêmica sobre o tempo a ser usado por cada orador. Um ouvinte perspicaz explicou que estipular o tempo entre um e três minutos não significava que a pessoa era obrigada a usar os três minutos. E, em tom de brincadeira, complementou: "Quem usar menos de três minutos ganhará uma revista de brinde" (a publicação foi divulgada durante o evento e, evidentemente, era literatura de esquerda). Ao ouvir essa proposta, um jovem sentado à frente, sem que o seu interlocutor o ouvisse, jocosamente afirmou: "É melhor ultrapassar os três minutos!"

Nesta mesma atividade, um dos presentes fez uma intervenção dirigindo-se a um membro específico dos participantes da mesa. Quando os palestrantes retomaram a palavra, um dos oradores considerou que era pertinente comentar a questão levantada, já que tratava de temas análogos. O companheiro interrompeu-o bruscamente e informou que a pergunta não era para o mesmo, mas para fulano. O constrangimento criado não anula o lado pitoresco do episódio.

Outros episódios engraçados ocorreram. Talvez fosse o caso de registrá-los a partir dos depoimentos de outras pessoas que participaram do Fórum. Você se candidata a fazê-lo? Escreva-nos...

Da nossa parte, é importante esclarecer que nosso objetivo não foi ofender quem quer que seja, mas apenas mostrar um pouco o lado hilariante do Fórum. Se você protagonizou um desses episódios quixotescos, por favor, não se irrite. Rir também é um ato revolucionário.

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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