Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na Universidade Estadual de Maringá e autor de História das Tendências no Brasil

Fórum Social Mundial: novos desafios, velhos dilemas

 

O Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre-RS, nos dias 31 de janeiro a 05 de fevereiro, reuniu cerca de 50 mil pessoas vindas de todas as partes do mundo. Foram cerca de 800 conferências, oficinas e seminários, e duas passeatas - na abertura e no penúltimo dia, contra a Alca - com a participação de milhares de pessoas que caminharam pelas ruas de Porto Alegre em clima de protesto, mas alegres e tranquilos.

O tom dissonante foi dado por um pequeno grupo que entrou em atrito logo após o discurso do presidente da UNE, vaiado por uma parcela do público. Coisas da política estudantil. Mas este episódio não teve o alcance que a grande imprensa deu na cobertura do Fórum, especialmente da passeata contra a Alca. Ficou nítido como a imprensa desvirtua um acontecimento enfatizando um dos seus aspectos conforme seus interesses. A tão propalada imparcialidade dos órgãos de imprensa mostrou-se, mais uma vez, uma falácia. Quem acompanhou toda esta movimentação apenas pela imprensa correu sério risco de ser mal-informado.

Mesmo quem estava presente no Fórum teve dificuldades de construir uma visão de conjunto, a não ser que fosse membro da sua organização ou tivesse acesso aos bastidores. As conferências, seminários, oficinas e testemunhos, ocorreram em vários locais, dispersos por toda a capital gaúcha. Só a posteriori, analisando os informes e artigos sobre o Fórum, das mais diversas procedências e matizes políticas-ideológicas, é que se tornará possível ter uma visão global do real significado e importância deste evento. Isto não impede que as pessoas tenham opiniões divergentes sobre o Fórum ou até mesmo que determinados profetas tenham antecipado conclusões, antes mesmo do seu início. Uns vaticinaram que um encontro mundial deste tipo só poderia resultar na reafirmação de teses jurássicas.

Outros, que recusam veementemente o epíteto de jurássicos, profetizaram que nada de muito importante poderia resultar de tal evento hegemonizado pelas teses reformistas e participacionistas, simbolizadas por temas como o Orçamento Participativo e a afirmação da cidadania. Estes também não foram ao Fórum - embora não tenham tido espaço na grande imprensa, como os primeiros. O interessante é que seus militantes distribuíam uma carta explicando o porque da não participação e arrolando suas críticas ao mesmo. Por que perder tempo com algo que, a julgar por procedimentos de uns e outros, nada mais era que um natimorto e não se justificava?

A realidade é mais complexa do que imaginam os profetas de plantão. Os que foram ao Fórum não constituem um todo homogêneo. A imagem que melhor expressa a multiplicadade de forças políticas que participaram do Fórum talvez seja a de um caleidoscópio. A grosso modo, o evento dividiu-se entre reformistas e revolucionários, considerando-se, como o caleidoscópio, a possibilidade de inúmeras combinações que rompem as unilateralidades. Numa das oficinas que participamos, por exemplo, ouvimos falas contra os setores à esquerda que enfatizam aspectos como o Orçamento Participativo e a perspectiva eleitoral. Um dos ouvintes lembrou que estávamos num Estado e numa cidade governada pelo Partido dos Trabalhadores e que este fator não podia ser desconsiderado quanto às facilidades de organização e mesmo da segurança do evento.

Um outro mundo é possível!, eis o lema do Fórum Social Mundial. Qual mundo? Isto significa o aprofudamento da democracia e da cidadania, um melhoramento das condições de vida e de trabalho das populações à maneira do Estado de bem-estar social? Siginfica fortalecer e reafirmar as teses sociais-democratas, as instituições do Estado e o caminho eleitoral para transformações sociais palpáveis?

Para amplos setores da esquerda as respostas a estas questões passa pela reafirmação do socialismo. Para estes, um outro mundo não só é possível, como é preciso. Mas, Um outro mundo é possível somente com socialismo! Não, não é uma mera questão semântica, um preciosismo teórico: trata-se de opções políticas divergentes que determinam a estratégia e a tática adotada para se contrapor à globalização capitaneada por interesses poderosos em todo o mundo.

Embora a conjuntura seja outra e os desafios a enfrentar não sejam os mesmos com os quais a esquerda se defrontou em seus primórdios, os dilemas são tão antigos quanto o socialismo. Em poucas palavras, trata-se do velho paradigma que contrapõe, na maioria das vezes de forma unilateral, reforma ou revolução. No século XIX os revolucionários tiveram que optar entre a participação nas instituições burguesas - por exemplo disputando o parlamento - e a abstenção eleitoral.

Os que optaram pela disputa da hegemonia com o capital, através da participação nas instituições da democracia liberal representativa, construíram grandes organizações partidárias e sindicais e tiveram um crescimento gigantesco, a ponto de muitos revolucionários da época se tornarem otimistas quanto às perspectivas de transformação da sociedade pela via parlamentar. A social-democracia alemã é um dos melhores exemplos. O grande dilema dessa estratégia diz respeito aos meios e fins: com a evolução da sua força eleitoral a organização social-democrata passa a ter interesses próprios não necessariamente coincidentes com o fim almejado; logo, o objetivo almejado, o socialismo, é substituído pela necessidade de manter a organização e os privilégios decorrentes do seu funionamento.

Por outro lado, como participar das instituições burguesas e evitar a cooptação? O capitalismo mostrou uma capacidade incrível de auto-reforma, incorporando não apenas as demandas da esquerda, mas também suas organizações e dirigentes. Os sociais-democratas não apenas legitimaram as instituições capitalistas, como passaram a defendê-las.

A Revulução Russa de 1917 acrescentou novos elementos ao paradigma reforma ou revoluçao. Também esta degenerou-se, instituindo o regime do Grande Irmão e aniquilou a liberdade. Instituiu-se uma falsa questão: socialismo versus democracia, entendida como liberdades e direitos burgueses. A esquerda tradiconal terminou por negligenciar as liberdades democráticas e a instrumentalizá-las. Infelizmente, foi preciso anos de regimes ditatoriais para uma nova revalorização da democracia - observe-se que esta revalorização também teve o efeito colateral de alimentar ilusões a respeito da democracia em sua forma atual, deixando-se de lado seus limites e o necessário aprofundamento desta. Muitos só acordaram e se libertaram do pesadelo stalinista com a queda do muro no leste europeu e a derrocada do império soviético. Mais de uma década depois ainda há recalcitrantes.

Reforma ou revolução? Colocada nestes termos, parece não haver outra alternativa. Tanto a social-democracia quanto os revolucionários, que beberam em fontes ideológicas autoritárias criticadas por Orwell em livros como 1984 e A revolução dos bichos, fracassaram. Hoje, como no passado, optar entre reforma ou revolução pode encobrir raciocínios unilaterais. No século XIX, Rosa Luxemburgo já percebia este equívoco:

Reforma social ou revolução? Pode, portanto, a social democracia opor-se às reformas sociais? Ou pode impor a revolução social, a subversão da ordem estabelecida, que é seu objetivo social último? Evidentemente que não. Para a social-democracia lutar dia-a-dia, no interior do próprio sistema existente, pelas reformas, pela melhoria da situação dos trabalhadores, pelas instituições democráticas, é o único processo de iniciar a luta da classe proletária e de se orientar para o seu objetivo final, quer dizer: trabalhar para conquistar o poder político e abolir o sistema salarial. Entre a reforma social e a revolução, a social-democracia vê um elo indissolúvel: a luta pela reforma social é o meio, a revolução social o fim. (Reforma Social ou Revolução? São Paulo, Global, 1986, p. 23)

Parece que paramos no tempo. Estamos no século XXI e muitos ainda agem como se suas cabeças estivessem deslocadas no tempo, como se estivessem em pleno século XIX. Aprender com as idéias do passado não significa transportá-las mecanicamente para o nosso tempo.

O desafio dos que se posicionaram no Fórum Social Mundial por um outro mundo socialista não é optar entre uma ou outra via, mas em descobrir estratégias políticas que afirmem as reformas, mas que, por outro lado, não se restrinja à conquista das mesmas como o fim último a ser alcançado. É difícil. Porém, este dilema não será superado pela fraseologia esquerdista e a repetição dos cânones retirados das obras dos pensadores do passado. Quem sabe tal estratégia não se resuma apenas ao objetivo de conquistar novos convertidos?

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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