Por

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO
Doutor em Ciência da Computação. Docente do DIN/UEM

 

Diáspora de talentos no país do futuro

 

Desde criança, costumava ouvir as pessoas dizerem: o Brasil é o país do futuro. Tornei-me adolescente ouvindo esse adágio. Hoje, adulto, continuo ainda ouvir a mesma coisa. Quando tal futuro vai chegar? (se é que algum dia isto vai acontecer?!). Note que esta visão não é pessimista, mas sim, realista.

Recentemente, tomei conhecimento de alguns dados estatísticos que me fizeram lembrar o país do futuro. Um número impressionante de pessoas de países emergentes têm emigrado para os Estados Unidos. Apenas, na década de 90, este número chegou próximo a 650.000 profissionais qualificados (segundo dados da Mckinsey divulgados em "Brains Abroad", The McKinsey Quaterly, No. 4, 2001). Dentro desses 650.000, temos inúmeros talentos brasileiros. Não disponho do número de brasileiros que compõem esses 650 mil (pois o relatório não divulgou tal dado, apenas a existência de brasileiros), mas perdemos e continuamos a perder talentos.

Apenas para acrescentar mais um dado estatístico, cerca de 20% dos trabalhadores do setor de tecnologia da informação nos Estados Unidos é oriundo de países emergentes, tais como China, India, Cingapura e também o nosso Brasil. Outro dado alarmante é que aproximadamente um terço de todos os profissionais atuando em pesquisa e desenvolvimento nos países em desenvolvimento têm deixado seus países em busca de melhores oportunidades nos Estados Unidos, Japão e países membro na União Européia.

A busca por talentos tem sido tão tamanha, que tem levado os Estados Unidos a dobrarem o número de vistos de trabalho para profissionais estrangeiros qualificados. Além disso, previsões apontam que o Japão necessitará importar pelo menos 30 mil trabalhadores qualificados para o setor de alta tecnologia até o ano de 2005.

Percebam que o fluxo de talentos tem se dado, na maioria dos casos, de países emergentes para países desenvolvidos. Estes últimos têm notadamente a percepção acurada da necessidade de investimento continuado em tecnologia. Qualquer país que almeje tornar-se desenvolvido ou manter-se como tal tem como um de seus requisitos possuir pessoal qualificado no setor de tecnologia bem como fazer investimentos no setor de ciência e tecnologia (C&T).

Segundo dados do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), o Brasil investiu cerca de 13 bilhões de reais em C&T no ano 1999, correspondendo a aproximadamente 1.3% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Percentuais próximos a este se sucederam nos anos de 2000 e 2001.
Há, segundo MCT, a intenção do governo brasileiro em aumentar os investimentos no setor de C&T de modo a chegar nos 2% em 2005. Embora possa parecer arrojado este esforço por parte do Brasil, ainda é muito pouco se compararmos a números dos Estados Unidos que têm investimento superando a barreira dos 100 bilhões de dólares ao ano no setor de C&T.

Então, surge novamente aquela pergunta: O Brasil é o país do futuro? Tornar-se-á o Brasil num país desenvolvido algum dia? Ou estaremos destinados a sermos eternos exportadores de banana e importadores de tecnologia?

Podemos tentar desenhar um cenário para esse país do futuro. Consideremos como aspectos positivos a criatividade do profissional brasileiro, sua capacidade de adaptar-se a novas tecnologias e demandas, a diversidade de riquezas que o país dispõe, a existência de boas universidades e institutos (desenvolvendo pesquisas em ciências básicas e ciências aplicadas) e uma significativa base de capital humano com formação variada.

Contudo, há aspectos negativos, que parecem prevalecer sobre os positivos. A despeito do capital humano existente, o governo tem dado sinais de verdadeiro abandono às universidades públicas. Na esfera federal, recentemente, tivemos uma longa greve com 107 dias de duração na qual docentes reivindicavam reposição salarial bem como melhores condições de trabalho. Já na esfera estadual, destaca-se a greve dos docentes das universidades estaduais do Paraná que hoje totaliza 120 dias de duração, um recorde histórico no Brasil. Se adicionarmos à indisposição política por parte dos governos, o pouco senão pífio investimento que setor privado tem destinado a pesquisas, não será difícil vislumbrar que o Brasil continuará sendo o país do futuro.

Se os fatores negativos de fato prevalecerem sobre os positivos, como parecer apontar os sintomas, um número cada vez maior de brasileiros elevarão os números de profissionais qualificados emigrando para países desenvolvidos. Em países do primeiro mundo, eles podem dispor de melhor renda, qualidade de vida, educação e sistema de saúde. Aliado a isto, existe uma consciência tanto dos governos quanto do setor privado daqueles países da necessidade de investimento continuado em pesquisas nas ciências básicas e aplicada.

Parece até haver uma força invisível atuando sobre o país de modo a mantê-lo eterno dependente da tecnologia desenvolvida nos países do primeiro mundo. Se não houver disposição política por parte dos governos (até agora um tanto inepto) e a consciência do setor privado, ao Brasil restará a languidez, com seu povo, deitado eternamente em berço esplêndido, sonhando ser a nação do futuro.

Apesar desse futuro parecer distante, encontramos ainda docentes na maioria das universidades públicas brasileiras que lutam contra essa força invisível, buscando evitar a diáspora de talentos do país do futuro. Se esta tentativa funcionará, o tempo dirá. Essas cabeças, além de possuir caráter investigador peculiar de todo cientista, também são persistentes e, porque não, muito sonhadoras.

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

     

 


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