Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)


 

Exilados: as trevas da Cidade Luz

 

O problema dos exilados na França tem aumentado a cada ano: 70% deles é composta por mulheres (em geral viúvas) e filhos com menos de três anos. A maioria vem da África e dos países do Leste. Quando chegam em Paris, procuram a Coordenação de acolhida às famílias que pedem asilo, se eles não podem acolhê-las se dirigem ao Service d'Aide Médicale Urgente (Samu social) de Paris que aloja atualmente uma centena de famílias, ou seja, em torno de 600 pessoas.

Existem outras entidades e associações dispostas a lutar e ajudar os exilados, mas como a procura é muito grande, esses organismos vêm tornado-se insignificantes. O Socorro Católico e a Cruz Vermelha dão apoio com roupas, dinheiro, etc., e os chamados Restaurantes do Coração (Resto du Cur), criados pelo saudoso Coluche, distribuem refeições gratuitas. A Associação Paris Pequeninos conta com a ajuda de voluntários e distribui todas as sextas-feiras leite e sopa para essas famílias. No entanto, ela afirma que, a maior parte delas não tem mais direito a nada, pois, desde há vários anos foram recusadas de acordo com o Estatuto de Refugiado Político pelo Oficio Francês de Proteção aos Refugiados e Apatriados (Ofpra). Essa recusa deve-se, além de outros, ao fato de que não existirem apenas os refugiados que são ameaçados politicamente, mas os que saem dos países em guerra por não terem opção de trabalho e sobrevivência. Para esses, todos os caminhos são fechados e são conhecidos como nem-nem, visto que não podem nem serem expulsos por causa das crianças menores, nem regularizados, porque, segundo a Ofpra, não preenchem os requisitos exigidos pela convenção de Genebra.

Essas pessoas dizem sentir-se "girando em círculos", e eu diria que todo esse problema é um círculo vicioso que não se sabe quando terá fim. No dia-a-dia, o clima é tenso: os franceses de um lado sentindo-se invadidos e ameaçados, com medo da violência causada por essa situação; os refugiados, de outro, sem opção de vida decente e armados contra o racismo.

Eles não têm documentos, trabalho, moradia, estão preocupados com o futuro de seus filhos, acabam pedindo esmolas, prostituindo-se ou tornando-se delinqüentes. São ricas de lembranças dolorosas, torturas, mortes dos entes queridos, medo de voltar ao país unido à desilusão de continuar na França, choque cultural, enfim, tudo o que afeta o bom andamento físico, psicológico, emotivo, etc., do ser. O que será delas amanhã? O que será dessa geração criada pelas ruas? O que são eles hoje? Se todos estão nesse círculo, quem fará algo para tentar sair dele? Ainda são perguntas sem respostas. Alguns crêem que o seu deus vira salvá-los, outros nem crença, nem esperança foram esvaziados por completo, reivindicam dignidade e recebem desprezo, vivendo nas trevas pelas ruas da Cidade Luz.

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     


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