Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor no Departamento de Ciências Sociais (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

A Delinqüência Acadêmica Hoje*

 

À memória de Maurício Tragtenberg

(1929 - 1998)

"A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber "objetivo", acima das contradições sociais." *

(Maurício Tragtenberg)

Fazem três anos que Maurício Tragtenberg faleceu. Foi uma morte precoce. Contudo, ele permanece vivo em nossa memória. Maurício nos faz refletir sobre a vida e a morte; mas também sobre os desafios e dilemas que vivemos. Suas palavras ainda estão vivas em nosso pensamento, em seus livros e artigos e em seu compromisso com a luta dos trabalhadores.  

Maurício expressa uma lição de humildade intelectual. Ele nos faz pensar sobre os que agem como se fossem imortais. Que será dos arrogantes, dos que se imaginam acima de tudo e que se iludem diante da finitude? Que pensar dos que se apegam às picuinhas do cotidiano, às mesquinharias da luta pelo poder? Como dizia um famoso economista, a médio e longo prazo, todos estaremos mortos. Esta é a única certeza absoluta que temos.

Mas, como escreveu o poeta, morremos duas vezes: a morte física e a morte pelo esquecimento. De fato, as pessoas choram a nossa morte, mas, precisam continuar vivendo. Logo, a rotina do cotidiano e as necessidades ditadas pela vida obscurece os sentimentos e a nitidez da memória.

Contudo, há os que mantém uma atitude humilde diante da vida e da morte. Em geral, são os que tem mais consciência da própria finitude. Há ainda os que superam a segunda morte. Estes, são poucos. Maurício é um deles.

Se o lembramos não é por acaso. Suas palavras ainda soam em nossos ouvidos, alegram os nossos corações quando as lemos e nos levam à reflexão. A saudade é um sentimento especial reservado às pessoas especiais.

Perdoe o leitor o sentimentalismo. Muitos compreenderão os motivos. Não queremos ser apologéticos ou representar o papel do discípulo embasbacado com o mestre. Isto não seria honroso à memória de Tragtenberg - este nunca teve a pretensão de deixar seguidores. Mas, somos humanos não apenas pela razão, mas também pelo sentir. Que seja compreensível, portanto, declarar o que pensamos e o que sentimos.

Uma das formas de expressar este pensar e sentir é resgatar sua obra e preservar sua memória. Não, não se trata de cultuar sua imagem. O culto à personalidade, essa praga que contamina os que seguem cegamente os líderes, não é própria aos que, como Tragtenberg, estimularam o pensamento crítico, a heterodoxia. Quem aprendeu suas lições não cometerá este equivoco. 

Se resgatamos sua obra é porque esta resiste ao tempo. Infelizmente, sua crítica mordaz à delinqüência acadêmica permanece atual. Muros caíram, conquistamos a democracia - ainda que cambaleante - e suas palavras, escritas há mais de 20 anos e proferidas no I Seminário de Educação Brasileira ainda nos desafiam:

"No século passado, período do capitalismo liberal, ela (a universidade) procurava formar um tipo de "homem" que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que  deformam dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas escolas de direito forma os aplicadores de legislação de exceção; nas escolas de medicinas, aqueles que irão convertê-la numa medicina o capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de um "complô de belas almas" recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for."

Estas palavras podem chocar muitos dos nossos pares - em especial, aqueles que se iludem com o caráter público da universidade, como se esta, por si, reinasse acima das contradições sociais. Acaso o caráter estatal das universidades tira-lhes o conteúdo classista? O saber diplomado e titulado é neutro? A quem servem as universidades?

Parece claro que as universidades expressam as contradições presentes na sociedade. Seu caráter público (estatal) ou privado não isentam-nas de servir a determinados interesses econômicos e políticos. Mas, isto ocorre de forma dialética: a universidade gera o seu oposto, a sua crítica radical. 

Não nos iludamos: os críticos somos poucos e nossa margem de manobra é mínima. Rejeitamos o jogo do poder, mas não estamos a salvo da sua sanha. Dizem que somos ingênuos; para outros, malditos. Persistimos sufocados entre a burocracia departamental e a pequenez dos que utilizam todos os meios para, em nome da luta antiburocrática, abocanhar parcelas de poder na estrutura burocrática. 

Não sejamos ingênuos diante da retórica esquerdizante: na luta pela posse dos recursos, status e poder, nossos radicalóides utilizam meios que superam os meios dos que afirmam combater. Há alguma coerência entre a retórica e a prática destes pequenos ditadores travestidos de democratas e de moralistas, defensores da 'coisa pública', coisa pública esta que disputam com imensurável gana? 

A análise de Tragtenberg sobre a universidade atinge a essência daquilo que a retórica esquerdista dos que se devoram e se consomem para conquistar o poder: seus meios e seus objetivos não-declarados ou disfarçados sob o discurso da defesa do público. De fato, defendem interesses particularistas, posições na estrutura, fatias do manjar que alimenta os espíritos insaciáveis pelo poder.

As "boas almas" rendem-se às exigências da luta pelo poder. Criticam os que estão no poder para melhor articular sua ascensão ao poder; elevados a pequenos potentados, tudo fazem para manter o status alcançado. Negociam cargos e 'almas'. 

Tragtenberg nos mostra como a política das "panelas" acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituía no metro para medir o sucesso universitário. Hoje é diferente? Ontem, a maioria dos congressos acadêmicos servia de "mercado humano", onde entravam "em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais".Essa realidade mudou? 

Hoje, como ontem, nos seminários, colóquios etc., financiados com o dinheiro público ou não, paga-se para apresentar trabalhos a si mesmos ou aos amigos, que se revezam entre falantes e ouvintes. Da mesma forma, o imperativo da quantidade: não interessa o conteúdo e a qualidade do que se publica, mas sim quantos pontos vale; também não importa se alguém lerá o artigo; de preferência que seja publicado em algum país vizinho, pois as revistas internacionais garantem uma pontuação maior. Transformemos aulas em palestras! Nos insinuemos aos nossos amigos para que nos convidem a proferir palestras! Façamos acordos de corredores! É preciso fazer currículo a qualquer custo!

Como escrevemos em outro momento**: Eis a "delinqüência acadêmica" revitalizada!

 

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* As citações são do artigo "A delinqüência Acadêmica", publicado em: TRAGTENBERG, Maurício. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo, Cortez Editora e Editora Autores Associados, 1990, pp. 11-16. 
** Ver: Maurício Tragtenberg e a Pedagogia Libertária, publicado em http:www.nobel.com.br/~cdmt e na Revista Lutas Sociais, nº 6, NEILs, PUC/SP

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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