Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor no Departamento de Ciências Sociais (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

O Antraz da Volks

Tempos atrás participei de debate na Rádio CBN local, cujo tema era o pânico instaurado pelo envio de cartas com o pó da temível bactéria do Antraz. Argumentei que há várias causas geradoras de pânico talvez mais preocupantes do que a bactéria em questão: a tensão da população civil afegã, em especial as crianças, diante dos bombardeios; a violência nas grandes cidades brasileiras; a fome e miséria que atinge milhares de pessoas no mundo; a intolerância e o racismo – não apenas os negros, mas também a comunidade árabe no Brasil e nos Estados Unidos; o terrorismo de Estado; a ameaça do desemprego etc.

Até o momento, segundo os dados publicados na imprensa, o Antraz enviado pelos bioterroristas matou 5 pessoas e infectou 13. Parece evidente que, do ponto de vista humanitário, é execrável todo e qualquer ato contra a vida humana, independente se atinge um indivíduo ou milhares. Porém, devemos procurar qualificar de modo racional a exata medida das coisas.

Observemos que os bioterroristas escolheram bem os alvos, multiplicando os efeitos propagandísticos: a maioria dos casos está relacionado a cartas enviadas para a midia e o Congresso. O ataque à midia americana contribuiu objetivamente para difundir o pânico. A mídia nacional não ficou atrás – exceção feita a poucos colunistas e especialistas da área. Brincadeiras de mau gosto colocaram mais lenha na fogueira.

A ameaça do bioterrorismo ganhou amplitude e propagação desproporcional se compararmos às outras questões que também afetam a vida humana e envolvem milhares de pessoas. É compreensível o pânico estabelecido na sociedade americana – em especial em categorias profissionais como os carteiros. Mas, é ridículo e artificial transpor o pânico externo para nosso país.

Aqui nosso pânico é de outra natureza. Imaginemos, por exemplo, como reagiram os 3 mil trabalhadores que receberam a carta de demissão da Volkswagen. Para estes, a correspondência enviada pela multinacional alemã equivale a incluí-los no rol das pessoas atingidas pela doença social moderna: o stress gerado pelo desemprego ou a perspectiva deste. O efeito Antraz causador de pânico é o mesmo.

Se a perspectiva de desemprego é fator gerador de pânico – quem vive sob a ameaça de perder o emprego bem o sabe – , ficar desempregado por este meio – o bilhete vermelho entregue em sua residência – é pavoroso e desumano. Será que os burocratas da Volkswagen, movidos pela racionalidade econômica, isto é, a busca alucinada do lucro, pensaram, por um segundo sequer, sobre os efeitos psicológicos das suas decisões sobre os trabalhadores e suas famílias? Qual o valor que estes têm para a empresa, a qual em tempos de vacas gordas gosta de tratá-los como colaboradores?

A favor da Volkswagen, devemos lembrar que ela não é original em demitir por carta. Nos anos 80, esta prática foi muito usada no ABC paulista – e depois, o mau exemplo se estendeu para outras regiões do país.

A bem da verdade o pânico da Volkswagen é anterior ao envio das demissões pelo correio. Afinal, como ficou a saúde mental dos milhares de funcionários – e das suas famílias – sabendo que deles 3 mil seriam os escolhidos?

Definitivamente: o Antraz da Volkswagen é muito mais potente do que a bactéria em moda nos EUA. É verdade que a o Antraz respiratório é letal. Aqui, morre-se aos poucos – o que nem sempre é melhor, pois pode ser torturante.

A Volks faz escola. Enquanto o Antraz continua a fazer vítimas nos EUA, a versão produzida nos laboratórios administrativos da empresa alemã ganha novos adeptos. Outra montadora, a sueca Scania, faz chantagem com a ameaça de demissão em massa, caso os trabalhadores não aceitem a redução dos salários.

O Antraz anti-social patenteado pela multinacional alemã é aplicado em doses homeopáticas – mas, admita-se, de forma inteligente. Primeiro, chantagear: aceitar cortes salariais ou ficar desempregado; depois, a mágica da reversão das demissões, com direito a viagem para a Alemanha. Aceitou-se no país germânico o que antes era inaceitável aqui no Brasil.

Demitidos, fragilizados materialmente e psicologicamente, os trabalhadores – com resistências – aceitam as propostas da empresa, recusadas anteriormente. E, agora, sob a benção da direção sindical. Mas, a diminuição de salários é anti-constitucional, portanto, o acordo é ilegal. Ora, tanto empresa quanto sindicato fazem vistas grossas às leis em vigor.

É surrealista. Enquanto a CUT resiste em Brasília contra o projeto que flexibiliza a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) - e que resultará em perdas de direitos -, a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC – filiado à CUT – aceita a flexibilização na prática e ainda é elogiada pelo dirigente máximo da Central Sindical.

No reino da hipocrisia, a derrota é apresentada como vitória e a Força Sindical, central servil do empresariado, criada e mantida pelo capital, como denuncia órgãos insuspeitos da grande imprensa, enquanto apóia e trabalha pela aprovação do projeto de lei que flexibiliza a CLT, posa de defensora dos trabalhadores e critica os dirigentes sindicais dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Talvez agora o Ministro do Trabalho (do Trabalho?!) que chamou os metalúrgicos de “irresponsáveis”, pela ousadia de recusar a proposta inicial da empresa, esteja feliz. Ele elogiou as capacidades de negociador do dirigente máximo dos metalúrgicos e disse acreditar que o mesmo teria condições de impedir as demissões em massa. (FSP, 09.11.01) O dirigente fez por merecer os elogios!

Enquanto isso, o governo promove um pacote antigreve e afronta o judiciário. O que parece uma medida de força só comprova sua fragilidade e incapacidade de superar conflitos sociais de forma democrática. E, o jornal Gazeta Mercantil demite 143 jornalistas por justa causa. Detalhe cruel: a decisão foi tomada após o Presidente do Tribunal Superior do Trabalho (?!),Almir Pazianotto, que ficou famoso por ser advogado do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, conceder liminar à empresa, desconsiderando a estabilidade empregatícia dos funcionários conquistada após a greve dos mesmos. Outro detalhe: o que motivou a greve foi a reivindicação de receber os salários em dias.

E assim caminha a humanidade...

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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