Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)


 

O câncer, o sorriso e o diálogo

 

Quantas vezes passamos por momentos difíceis onde o chão parece faltar aos nossos pés sem podermos contar nem mesmo com um simples olhar consolador. A correria das grandes cidades (e mesmo do dia-a-dia, onde quer que seja) nos atropela, literalmente, não nos deixando tempo para gastar com esses seres tão parecidos conosco que nos incitam a chamá-los humanos, pois assim os nomeando, sê-lo-emos, nós, também.

Sem ater-me ao choque cultural, tenho notado indigentes, no metrô parisiense, mendigando sorrisos e atenção. Não foram poucas as vezes em que sorri, não pelo bizarro pedido, mas porque após certo tempo de rotina perguntando-me o motivo dessa tática, senti imensa vontade de juntar-me a eles ao compreender que em dias frios e cinzentos um simples sorriso vale pelo astro de maior grandeza. Porém, não é necessário investigar muito para perceber que ali, onde apesar da multidão, reina um silêncio sepulcral, às vezes quebrado por músicos, isso não funciona.

Sabemos que hoje em dia, muito valor se dá às relações humanas. Em todas as áreas, as pessoas buscam qualidade de atendimento, mais que o próprio serviço. Tendo consciência disso, a saúde francesa tem empregado uma nova técnica para o tratamento do câncer: a palavra. Através do diálogo, os médicos e atendentes têm tentado diminuir a distância existente entre a vivência deles e a dos pacientes. Entre os 34.000 novos casos de câncer por ano no país, o da mama é o mais freqüente nas francesas. Com as técnicas desenvolvidas de tratamento é possível salvar duas a cada três pacientes.

As dificuldades encontradas são inúmeras, não só no plano físico, mas psicológico, familiar, profissional, social e material. Para tentar melhor compreender esses elementos, os laboratórios Bristol-Myers-Squibb confiaram ao Instituto Louis Harris France a realização da pesquisa intitulada Percurso das mulheres 2001, feita junto a 1.860 mulheres tratadas em 87 estabelecimentos : centros anticancerígenos, hospitais universitários ou gerais e clínicas, dando seqüência à primeira pesquisa nacional feita em 1993 que deu ênfase à necessidade de informação e de explicações a todas as etapas percorridas durante o tratamento.

Na Clínica Sainte-Catherine d’Avignon, a escuta é posta ao centro do tratamento terapêutico, dando importância às necessidades das doentes e tentando encontrar soluções em todos os níveis. Para o Dr. Daniel Serin, existem quatro armas contra o câncer da mama : a cirurgia, a radioterapia, a quimioterapia e a palavra. Assim, as consultas são mais longas para que os diagnósticos, bem como o processo de tratamento, sejam bem detalhados e a paciente tenha tempo para se expressar.

Os primeiros resultados qualitativos dessa pesquisa - cujos resultados definitivos serão divulgados no fim de fevereiro de 2002 – mostram mulheres sofridas, porém,  mais confiantes e menos depressivas. Em geral, elas tomam consciência do trabalho humanitário, como Marie-Agnès que se ocupa de uma rede de pacientes da Liga Nacional de Combate ao Câncer, organizando trabalhos para melhorar os problemas da vida cotidiana no nível financeiro, socio-profissional, ajuda a domicílio, etc. ; ou simplesmente como Marie-Christine que canta na sala de espera da quimioterapia para encorajar as outras doentes que, segundo ela,  são muito tristes, e declara: “… mas depois, quando eu fico só, eu choro.”**.

Esse é apenas um dos exemplos de que os franceses, não com o exagero brasileiro, estão tentando sorrir mais, ser mais calorosos, principalmente em situações difíceis, combatendo a pressa e quebrando o gelo subterrâneo, tentando extirpar a depressão. Basta estarmos um pouco atentos para encontrarmos lindas lições de vida, onde, ainda que brotem muitas lágrimas dos olhos sofridos, elas acabam morrendo em sorrisos de fraternidade.

** Tradução minha.

 

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     


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