Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em ciências sociais, mestre em planejamento econômico e autor de Formação da Diplomacia Econômica no Brasil (São Paulo: Senac, 2001)

 

Um Taliban na corte do Bey de Argel

(Série “Cousas Diplomáticas” nº 3)

 

Dois séculos atrás, nas águas pouco plácidas do Mediterrâneo, se desenvolvia um drama que de certa forma se parece, na forma e na substância, com os episódios atuais de caça a terroristas. Estes, no início do século XIX, eram em parte representados por piratas islâmicos e outros "empresários" do corso, que viviam de incursões contra os "infiéis" e depois, então como agora, iam esconder-se em territórios inóspitos e pouco frequentados, sob a eventual proteção de dirigentes políticos comprometidos com um visão propriamente talibanesca do mundo. Tal parecia ser o caso, por exemplo, da cidade de Argel (capital da atual Argélia, aliás assolada por outros talibans modernos), sob a liderança inspirada de um "bey" colocado sob o protetorado do sultão da Sublime Porta.

Vejamos, por exemplo, o relato contemporâneo e bastante vivo da situação dessa espécie de "Afeganistão mediterrâneo" que nos faz o primeiro jornalista independente brasileiro, Hipólito José da Costa, a partir de um despacho datado de 28 de abril de 1808, proveniente de Argel, porto então dominado pelos famosos piratas da Barbária. As atitudes verdadeiramente talibanescas de seu protetor (e provável agenciador comercial), o "bey" de Argel, digno antecessor do Mulá Maomé Omar, terminaram por exasperar o presidente americano, Thomas Jefferson, que manda uma frota de navios de guerra ao Mediterrâneo para caçar esses piratas e os regimes que os abrigavam.

Como se diz: "qualquer semelhança"

Transcrição fiel:
(atenção revisor: não altere a saborosa ortografia original)

"Abril 28. As medidas adoptadas pelo Dey de Argel contra os Europeos fazem-se cada dia mais violentas. Como o Dey acaba de assumir o Governo ás suas mãos, e não está por forma nenhuma seguro da fidelidade de suas tropas, nem ainda mesmo da confirmação do seu posto pelo Gram Senhor [o Sultão de Istambul?], pois esta ainda não lhe chegou; e estando além disso envolvido n'uma sanguinolenta guerra contra o Dey de Tunis, assentou que podia, a pesar destas circunstancias metter todas as naçoens á contribuição.

Aos 22 do corrente pedio aos Consules Sueco, Dinamarquez, e Holandez, que lhe trouxessem os seus presentes; e pedio ao Consul da America, 18.000 piastras dobles, para se indeminisar da perca de nove Argelinos, que lhe haviam sido tomados abordo d'um navio Americano. O consul pretextou que esta gente havia sido lançada ao mar pela equipagem, quando eles estavam ao ponto de serem abordados por um de seus corsarios.

O Consul da Suecia concordou em dar o presente. A 23 foram chamados a Palacio os Consules da Dinamarca, Hollanda, e America.

O Consul de Hollanda disse, que esperava instrucçoens de seu Governo, e que, em quanto as não recebesse, não podia fazer presente algum. Em consequencia disto o Dey lhe fez intimar que se á volta do mensageiro não recebesse o presente, lhe mandaria pôr os filhos a trabalhar a ferros.

O Consul da America disse, que não havendo recebido noticia oficial de seu Governo relativamente ás 18.000 piastras não podia fazer pagamento algum. O Dey replicou, que ou elle havia de pagar esta soma em quatro dias, ou que o mettia a ferros; do contrario, que lhe entregasse nove americanos, que elle queria enforcar ás portas de Bab-azou.

Mr. Ulrich, consul de Dinamarca, fez uma apresentação sobre o estado do seu paiz, alegando, que o navio em que vinham os presentes fora tomado, e confiscado pelos Inglezes, e que o mesmo Agente Inglez em Argel poderia atestar isto; solicitava por tanto o Consul, do Governo, algum tempo de espera. O Dey porém replicou a isto com o mandar immediatamente agarrar, pelos seus officiaes de Justiça, e conduzir á prizão entre as apoupadas de uma barbara populaça. Mas pelos rogos de todos os outros Consules Europeos se pôde obter a sua liberdade.

Todos os escravos são aqui tractados com a mais horrida crueldade. 450 Portuguezes se ácham fechados n'uma prizão; porque a Corte de Lisboa se demorou em mandar o seu tributo. O Governo não lhes tem mandado o menor socorro, e por tanto se ácham-se na mais deploravel miseria. Tanto os officies como os marinheiros são condenados ao trabalho, e tractados com a maior ignominia.

Um grande numero de Napolitanos soffrem quasi a mesma sorte, e o Dey que espéra conquistar Tunis, na primeira campanha, se lisongea com captivar mais de 3.000 escravos Europeos, cujo resgate elle intenta fixar em alto preço."

(Transcrição tirada de Hipólito José da Costa, Correio Braziliense ou armazém literário (São Paulo: Imprensa Oficial; Brasília: Correio Braziliense, 2001), vol. I, junho 1808, seção "Miscelânea", pp. 72-73.)

Condoeu-nos saber da sorte dos "450 Portuguezes [que se achavam] fechados n'uma prizão; porque a Corte de Lisboa se demorou em mandar o seu tributo". Portugal encontrava-se então sob ocupação napoleônica (mas seria rapidamente liberado por tropas inglesas) e a corte estava nesse mesmo momento recém instalando-se no Rio de Janeiro, para começar vida nova, longe dos piratas barbarescos do Mediterrâneo. Não se sabe quanto tempo ainda permaneceram encarcerados esses pobres portugueses, vários deles marinheiros, alguns comerciantes, outros inocentes passageiros por terras e mares pouco seguros.

O fato é que a ação "terrorista" desses talibans mediterrâneos despertou a justa ira das potências ocidentais que despacharam seus navios de guerra às aguas do Mediterrâneo para restaurar o primado da lei e da justiça nessa terra de "bárbaros". Cerca de três décadas depois, a França começava a ocupar e colonizar o território argelino, dando início à longa amputação do império otomano.

PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

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