Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br

 

Fundamentalismo Ocidental

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Fundamentalismo Muçulmano

 

Começou a guerra britânica e norte-americana contra o Taleban. As provas apresentadas pelos EUA que indicam o comando de Bin Laden no ataque ao World Trade Center e Pentágono foram questionadas por grande parte de imprensa internacional. A revista Época denominou as provas de "polêmicas" e "pobres". The Guardian afirmou em editorial que Bin Laden seria absolvido em tribunal internacional. Mas, então, qual motivo leva duas potências internacionais a atacar um país onde 79% da população reside no meio rural, onde a expectativa de vida não ultrapassa 49 anos e  onde 64% são analfabetos? E o que faz um país tão pobre cair numa armadilha internacional tão evidente?

Tentemos encontrar algumas explicações a partir de uma leitura geopolítica do conflito:

O retorno ao Oriente Médio: EUA e Europa foram alijados do território que é palco da guerra, em especial, no final do século XX, quando vários Estados Muçulmanos fundamentalistas promoveram um ataque frontal ao mundo ocidental, tendo o Irã e o Iraque como lideranças desse bloco político. Esta região é estratégica para o ocidente. A linha que une Afeganistão ao Mar Cáspio compreende reservas petrolíferas e de gás natural essenciais para diminuir a crise energética que se esboça em vários países ocidentais. A exploração comercial dessa riqueza exige altos investimentos que somente empresas norte-americanas e européias podem custear. Mas o mundo muçulmano impede veementemente tal possibilidade.

A disputa entre potências: Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra, aproveitou-se da fragilidade do governo Bush e assumiu a liderança diplomática e militar que envolve os bastidores da guerra. Em poucos dias, encontrou-se com vários dirigentes da Europa, da Índia e Paquistão. Forjou uma frente militar e geopolítica, além de reconstruir a aliança EUA/Inglaterra em desuso desde a II Guerra Mundial e inimaginável logo após a vitória eleitoral de Bush, em virtude de Blair ter apoiado abertamente Bill Clinton e seu candidato. O primeiro-ministro inglês é hábil e ágil e não tem evitado demonstrar quem está na direção dos movimentos políticos e na defesa dos interesses ocidentais nesta guerra.

A guerra santa: As disputas regionais envolvendo Paquistão e Índia definem os contornos da atual guerra e o futuro das pretensões ocidentais. É um cenário de jogo de xadrez dos mais complexos. Comecemos pela disputa da Caxemira, região que se localiza ao norte da Índia, Paquistão e Afeganistão. É um território disputado desde a criação dos Estados do Paquistão (muçulmano) e da Índia (hindu), em 1947. Após dois anos de conflito, este território foi dividido entre os dois países. Nos anos 80, inicia-se um movimento guerrilheiro de unificação territorial, denunciado pelo governo indiano como financiado pelos paquistaneses. Em 98 e 99, os dois países realizam testes nucleares e, em seguida, iniciam um conflito militar. O Serviço de Inteligência do Paquistão, desde então, vem utilizando o Afeganistão como uma base territorial para o conflito com a Índia. Daí seu apoio ao Taleban. O Afeganistão que, desde 1973, era um país vinculado ao bloco soviético, em 1979 forja uma organização guerrilheira muçulmana de oposição ao governo central. O conflito interno foi promovido pelo Paquistão, apoiando a ascensão da milícia Taleban ao poder, o que ocorre em 1995. Entretanto, outros conflitos étnicos e religiosos permanecem e nos próximos dias poderão aflorar no cenário de guerra. O primeiro deles diz respeito ao posicionamento dos pashtuns. A etnia pashtun ou patane envolve 38% da população afegã e 13% da paquistanês. Organiza-se em estruturas tribais que se localizam numa faixa territorial que desenha um semi-círculo no território afegão, iniciando na fronteira leste com o Paquistão, descendo ao sul do país e cobrindo parte da fronteira oeste, com o Irã. Os pashtuns possuem um código moral muito rígido apoiado no binômio vingança e hospitalidade. Mesmo sendo muito pobres, as tribos pashtuns recebem os visitantes com excesso de amabilidade. Muitas lideranças afirmam que esta tradição orienta sua relação com Bin Laden, seu hóspede mais famoso. Os pashtuns consideram-se uma nação específica e a localização de suas tribos perpassa o Afeganistão e Paquistão, o que pode levar sua população à guerra contra o ataque ocidental, desestabilizando o governo paquistanês. Um segundo conflito territorial é o religioso. O mundo muçulmano se divide em sunitas e xiitas. Paquistão e Afeganistão possuem maioria sunita e o vizinho Irã possui maioria xiita. Os xiitas acreditam que todas revelações divinas foram recebidas por Maomé e estão contidas no Corão, o livro sagrado. Por este motivo, lideranças religiosas altamente preparadas, os imãs, são necessárias para interpretarem com rigor o Corão. Já os sunitas desenvolveram um código legal, a Sharia, que deriva do Corão, da tradição islâmica e do consenso entre suas comunidades. Os sunitas procuram recriar e fortalecer estruturas comunitárias, enquanto que os xiitas apoiam-se em leituras mais esotéricas do Corão. Contudo, há uma segunda divisão, entre os sunitas, envolvendo aqueles que são mais culturalmente flexíveis e os fundamentalistas, que exigem a aplicação rigorosa da Sharia, suspendendo os direitos das populações não muçulmanas. Este é o caso do governo do Taleban.

Como se percebe, a guerra que se inicia cria um palco de múltiplos interesses. Nele, emergem rancores e ódios latentes, muitos deles dificilmente compreendidos exclusivamente pela razão. Uma guerra entre culturas.

 

RUDÁ RICCI

     

 

 


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