Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br

 

Salam

 

A semana de 11 de setembro acabou sem dar resposta alguma ao mundo. Todas agências de análise dos mercados e da política internacional emitiram boletins cautelosos, mas que apontavam para uma possibilidade concreta de crise sem precedentes. O que preocupa todos analistas internacionais? Em primeiro lugar, a capacidade de liderança de George Walter Bush. O apoio significativo da população norte-americana ao seu presidente (as últimas pesquisas de opinião registram 84% de apoio) não assegura decisões racionais de seu líder. Bush é pouco habilitado em questões internacionais e as eleições presidenciais passadas deram desconcertantes mostras de sua incapacidade nesta matéria.

Os cenários possíveis são pouco nítidos. Mesmo sendo temerário, tentarei apontar algumas possibilidades.

No campo da política internacional, o cenário mais provável é de guerra, colocando à prova a liderança do mundo ocidental. Uma guerra especial, do século XXI. É possível aventar duas situações:

a)     os EUA lideram uma ofensiva equivocada ao mundo muçulmano. Não é uma possibilidade descartável, embora Bush tenha demonstrado insegurança nos últimos dias. Mas a pressão de grupos de extrema-direita em seu país pode obrigá-lo a dar demonstrações de um torto nacionalismo. Se os EUA liderarem uma ofensiva ao Afeganistão, poderá arriscar-se a provocar uma jihad, ou Guerra Santa. Esta situação ocorreu na guerra Soviético-Afegã, de 1979-89. Naquela oportunidade, os EUA formaram uma frente anti-soviética de apoio ao governo do Afeganistão. A Arábia Saudita doou, entre 1984 e 1986 cerca de 525 milhões de dólares para a resistência e doou mais 436 milhões de dólares em 1989. O Paquistão, por sua vez, foi o veículo da entrada de dinheiro norte-americano no Afeganistão. Dinheiro que chegou às mãos de uma facção fundamentalista, liderada por Gulbuddin Hekmaryar. A guerra gerou uma milícia preparada e fortemente armada, incluindo 400 mísseis Stinger que, ironicamente, é apontada como inimiga dos norte-americanos;

b)     Os EUA lideram uma ação tópica e conseguem intimidar as lideranças palestinas. Esse, inclusive, é o cenário do momento, já que Arafat e a Autoridade Palestina advertiram recentemente os grupos islâmicos radicais, Hamas e Kihad Islâmica, que não tolerarão ataques à Israel.

A primeira situação leva ao caos internacional. A Guerra Santa, envolvendo o mundo muçulmano, não será uma guerra convencional. O ocidente lutará contra um exército nômade, descentralizado, comunitário e fanático. Não será uma luta contra um território, mas contra uma cultura. Lembremos que o islamismo é a segunda religião na França. Todo o norte da África é islâmico. Trata-se de uma unidade política, religiosa e cultural. Como dizia Hassan al Banna: "o Islã é uma ordem total, é guerra santa ou apostolado". É fato que existem correntes nacionalistas no mundo árabe que se distinguem das correntes unificadoras. Mas as tradições e o orgulho religioso sempre calam fundo nas decisões dos países islâmicos.

A segunda situação é uma incógnita. Em 1990, a Liga Árabe decidiu condenar a ação de Saddam Hussein, a senha para o início da Guerra do Golfo. Entretanto, Irã, Jordânia, Líbia, Mauritânia, Iêmen, Sudão, Tunísia, OLP, Hamas e Frente Islâmica de Salvação (FIS) apoiaram o Iraque. Significa que Arafat e a Autoridade Palestina poderão sofrer grande desgaste político, embora o conflito fique restrito à uma parcela do território oriental. A caça a Bin Laden exigirá o uso de tropas terrestres. E os EUA erram constantemente no reconhecimento de alvos. Finalmente, as tropas ocidentais enfrentarão forças guerrilheiras heterodoxas estimadas entre 5 mil e 15 mil efetivos, misturadas à população urbana que vive em cidades repletas de vielas e ruas sinuosas e estreitas. O que leva a crer que a guerra será extremamente violenta e global ou longa e difícil, exigindo paciência à opinião pública ofendida dos EUA.

Para o Brasil, qualquer cenário de guerra aprofundará nossa crise econômica. A agência Standard & Poor's afirma em seu último boletim que dificilmente países como o Brasil conseguirão crédito internacional nos próximos meses. Os grandes investidores estão retraindo seus lances e dirigem seus recursos para ativos mais seguros. O ouro teve aumento de 4% na última sexta-feira. As bolsas de valores do ocidente caíram ao redor de 4% e o barril de petróleo subiu 8%. Um quadro de insegurança frente à guerra que se avizinha.

Para o Brasil, o único cenário favorável é o de paz. Esse sentimento e desejo que os árabes denominam de Salam.

RUDÁ RICCI

     

 

 


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