Contra o Vestibular

 

Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Doutorando em Ciências Sociais, Professor da PUC (MG) e Escola Superior Dom Hélder Câmara. Autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp) e Diretor da CPP Consultoria em Políticas Públicas

As reformas em curso implementadas no Ensino Médio esbarram num obstáculo que a sociedade brasileira recusa-se a discutir: o vestibular. O vestibular brasileiro, em si, não é o principal vilão do afunilamento do acesso à Universidade, mas ajuda em muito a deteriorar nossa prática educativa. Com efeito, segundo dados oficiais, de cada mil alunos que ingressam no primeiro ano do ensino fundamental, apenas 50 chegam às Universidades. Mas o vestibular impele os professores de Ensino Médio a se reduzirem à condição de técnicos em memorização.

O fato é que teoricamente a concepção psicopedagógica que se aplica na maioria dos cursos de Ensino Médio no Brasil e na quase totalidade dos cursos preparatórios ao vestibular é a base conceitual da Escola Comportamental. Esta teoria sustenta que uma pessoa, se condicionada cotidianamente, acaba agindo como o seu adestrador previa. Skinner, um dos elaboradores desta teoria, acreditava que a inteligência era apenas uma adaptação ao meio e que um reflexo condicionado seria o estímulo correto ao desenvolvimento do ato inteligente. Hoje, sabemos, a inteligência significa capacidade de decisão. Não se resume ao condicionamento, mas ao repertório que uma pessoa possui e sua capacidade de criar para resolver um problema inusitado.

O vestibular impede o desenvolvimento da inteligência porque exige uma quantidade exagerada de informações. Como a maioria dos professores de Ensino Médio resolvem esta demanda? Adotam métodos questionáveis de instrução e condicionamento, como é o caso dos "simulados". Os "simulados" são ações repetitivas de exercícios e problemas já empregados em exames vestibulares passados. É o condicionamento programado. O aluno, de tanto fazer "simulados" relaciona uma palavra-chave à resposta esperada. Dois problemas destacam-se neste expediente. O primeiro, diz respeito à noção de verdade científica. Nos dias de hoje, uma verdade científica perdura, em média,  três anos. É um erro grosseiro, portanto, condicionar uma pessoa a responder um problema científico da maneira como se respondia há dez ou quinze anos atrás. O segundo problema é que o professor pode instruir o aluno para a prova, mas não o educa para a vida. O mundo globalizado exige capacidade de resolução de problemas novos, o contrário do condicionamento. Para condicionar um reflexo mental é necessário disciplina total. Mas para criar é necessário liberdade e até mesmo uma pitada de indisciplina. O que estou afirmando é que os "simulados" desarticulam o exercício mental da criatividade humana. São péssimos recursos educativos, portanto.

Gostaria, como educador, de vivenciar o fim do vestibular no Brasil. Mas existem alternativas que, se não terminam com esse grosseiro erro pedagógico, podem torná-lo mais inteligente e útil à vida de nossos jovens. Vou citar a experiência norte-americana.

Nos EUA, existem dois exames básicos, preparados por instituições privadas, que os estudantes fazem durante o Ensino Médio (2o grau). Eles podem escolher qual, quando e quantas vezes fazer o teste. Normalmente, preferem faze-lo nos dois últimos anos do curso secundário, pois se sentem mais preparados. O ACT Assessment, consiste em provas de inglês, matemática, compreensão de texto e ciências. O Scholastic Assessment Test, o SAT, traz questões de matemática e inglês. Algumas Universidades exigem que o estudante faça o SAT II, que é centrado em uma matéria específica - história, química, biologia, física e línguas - em mais de um assunto.

Mas, na hora de selecionar seus alunos, a Universidade também pode exigir cartas de recomendação da escola e um texto preparado pelo estudante sobre o curso que escolheu ou outro tema definido pela instituição. É comum também a realização de entrevistas com quem está pleiteando uma vaga e a aplicação de testes práticos se o estudante quer ingressar em cursos como música e artes. Outros fatores também contam ponto: se o aluno está envolvido com atividades esportivas, se é voluntário em atividades comunitárias, hospitais etc. No entendimento das universidades, isso mostra a capacidade de socialização do estudante e o grau de comprometimento com sua comunidade e com seu país. Em outras palavras, é um exemplo de cidadania.

Estas informações podem ser obtidas no site do Ministério da Educação. Não são, portanto, desconhecidas dos nossos governantes. Mas o volume de dinheiro que este mercado do vestibular movimenta, dificulta em muito a superação do nosso vestibular. E muitos pais não percebem o desastre que os métodos de memorização empregados no Ensino Médio representam na vida de nossos filhos.

O escritor Affonso Romano de Sant'Anna escreveu sobre o vestibular brasileiro no seu texto "O Vestibular da Vida". Diz o autor: "um enduro sem moto, um rali sem carro, uma maratona onde, ao invés de atletas, correm paraplégicos, cegos, presidiários, grávidas e doentes em suas macas, esta é a imagem que nos deixa este vestibular realizado esta semana, mobilizando centenas de milhares de jovens em todo o país. (...) Como se fossem dar um salto sem vara. Como se fossem dar um salto na vida." A vida, todos sabemos, é muito mais que um salto.

 

RUDÁ RICCI

     

 

 


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