A Admirável Maringá e o governo democrático e popular

 

Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor da Universidade Estadual de Maringá; doutorando na Faculdade de Educação (USP); autor de História das Tendências no Brasil. .


Maringá é enaltecida pela qualidade de vida que oferece. Os parques florestais são fontes de saúde e lazer e até mesmo os seus pequenos habitantes extasiam crianças e adultos admirados com o espetáculo da natureza. As árvores embelezam a paisagem urbana e enlevam os espíritos amantes da natureza, tornando o simples caminhar um deleite.

Maringá é acolhedora em sua essência e origens. Migrantes e imigrantes construíram-na e fincaram raízes nutridas pelo trabalho de gerações. Maringá tem vocação para prosperar econômica e socialmente. Cidade universitária, concentra uma população jovem, ávida de progredir e fator irrigador do comércio pujante local.

Maringá possui uma estrutura de serviços invejável para cidades do mesmo porte. Destacam-se áreas como a da saúde, cujas especialidades são tão múltiplas quanto as necessidades do corpo. Também é notável a quantidade de farmácias, o que pode gerar a falsa impressão de que vivemos num habitat enfermo.

Maringá tem inúmeras qualidades que a credenciam como uma cidade do presente e do futuro, uma das melhores para se viver. Mas, há outra Maringá que não convém apologizar. É a Maringá dos ausentes dos bancos universitários; dos que não podem consumir os serviços dos hospitais privados e especialistas da área da saúde; dos que vivem em bairros sem acesso à saúde pública de qualidade, às melhores escolas, sem oportunidades de emprego.

Há uma Maringá opulenta, bela e sedutora, que oculta outra cidade onde campeia a desigualdade social, a inexistência de infra-estrutura à altura das necessidades sociais e cujos trabalhadores ganham salários tão baixos que outras categorias profissionais mais aquinhoadas são vistas como elite. Há uma Maringá rica e acessível à classe média alta e remediada e inacessível para boa parcela da população. Há uma Maringá harmoniosa que, à maneira de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, esconde uma Maringá prenhe de contradições e selvagem.

Mas há também esperança. A condução de um governo de esquerda ao poder municipal expressou não apenas a rejeição à velha forma de fazer política e aos vícios e corruptos, mas também a perspectiva de acesso a bens e serviços que melhorem a qualidade de vida como um direito universal.

A administração atual herdou uma massa falida, fruto da extorsão e da avidez privada que assaltou os cofres públicos. O governo municipal, em que pese as dificuldades financeiras, tem a complacência da maioria da população, a qual compreende a gravidade da situação e pacientemente espera. Este governo teve ainda a seu favor uma atitude benevolente por parte do legislativo.

Tudo parece harmonioso. Porém, a longa lua-de-mel parece findar-se e as exigências políticas e sociais se intensificam. As expectativas eleitorais dos partidos e forças políticas locais estão em consonância com as exigências estaduais e nacionais Os interesses econômicos e políticos tendem a se explicitar e a acirrar as contradições..

A administração tem mantido o apoio majoritário e tomado iniciativas – em especial, o orçamento participativo – que merece elogios. Está no caminho certo. Mas seu raio de ação é limitado pela inexistência de recursos para investimentos. Porém, os problemas sociais exigem soluções, criatividade e opções políticas. Chega a hora de definições: qual das duas ‘Maringás’ deverá ter a prioridade da ação governamental? É possível governar para todos os interesses?

Afinal, para que serve um governo de esquerda senão para alavancar as condições de vida dos que não possuem recursos privados para ter acesso aos bens básicos. O que diferencia um governo de esquerda? A transparência administrativa? O discurso pela ética e pela moralização da política? O apelo à cidadania e à democracia? As louváveis intenções de salvaguardar o aspecto social? Mais do que a invocação da moral e o uso da retórica, uma administração de esquerda se diferencia sobretudo pelo projeto político, econômico e social e pela prática concernente à sua execução. Ainda temos tempo...

ANTONIO OZAÍ DA SILVA

     

 


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