Universidade: um Provedor de Serviço de Educação?

 

Por ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO
Doutor pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Mestre pela University of Waterloo - Canada; Professor do Departamento de Informática da UEM


“Wilhelm von Humboldt, fundador da Universidade de Berlin em 1809 espalhou a idéia de que universidades são lugares para realizar pesquisa. O papel delas tem sido prover os estudantes com ampla base de educação e preparar a carreira deles. O professores deveriam ser estudantes, pesquisadores bem como instrutores”. [The Economist, 24 Agosto de 1996].

As universidades carecem de uma reestruturação. Após séculos de mudanças evolucionárias, elas se mostram com um novo semblante apresentando-se com novas funções e métodos. Hoje em dia, o modelo predominante é ainda uma combinação do ensino tradicional e pesquisa acadêmica como difundido por Humboldt no século XIX. As diretrizes da visão de universidade de Humboldt são pesquisa e ensino bem como liberdade para os professores. Entretanto, as mudanças são inevitáveis devido a pressão para mudanças por parte sociedade, grupos políticos e da mídia. Pode-se dizer que as mudanças são bastante influenciadas pelos novos avanços tecnológicos e novos ambientes de ensino decorrentes.

O papel da universidade hoje precisa ser redefinido com novos conceitos. Por exemplo, a Internet possibilita a existência de salas de aulas virtuais. Bibliotecas digitais oferecem repositórios de conhecimento. A Web tem disponível diversos materiais que podem ser utilizados em seminários e outras atividades de pesquisa. A simulação computacional permite substituir experimentos realizados em laboratório.

Perceba que a tecnologia é meramente um serviço ou componente adicional como o computador ou recurso áudio visual. A tecnologia apresenta-se como elemento essencial da universidade em termos de desenvolvimento e transferência de conhecimento. Assim, uma reformulação deverá acontecer (e até  já se percebe sua ocorrência de forma tímida) a fim de reter o espírito da universidade como uma fonte de conhecimento.

As universidades, hoje em dia, deparam-se com uma crise tanto financeira quanto estrutural. A maioria delas são dependentes de financiamento público. Entretanto, os recursos para educação estão sendo cada vez menores devido a orçamentos minguados por parte do governo os quais não têm atendido a demanda cada vez mais crescente. Muitas vezes, o governo questiona o valor econômico da pesquisa acadêmica. Todavia, algumas companhias, principalmente nos centros mais avançados, estão pagando para utilizar resultados relevantes de pesquisa. Para lidar com tal situação, as universidades precisam atuar em duas frentes: uma requer uma reestruturação para permitir sobreviver com os parcos recursos existentes e outra que considere a re-orientação de seus programas.

Além das questões levantadas anteriormente, as universidades têm se deparado com o número crescente de estudantes bem como têm sido pressionadas a oferecerem uma quantidade de vagas cada vez maior a fim de atender a demanda/pressão social. Diante de tal cenário, o papel de professores e alunos na era de informação precisa ser reconsiderado.

É importante salientar que a estrutura e status das universidades foram concebidos para permitir o máximo de independência, tanto internamente quanto externamente (relativo às forças externas). Esta situação não possibilita que um processo de mudança seja facilmente implementado. Mudanças nas universidade de modo a reduzir sua independência implicará numa destruição do espírito da universidade.

O pessoal das áreas de Ciência da Computação e Engenharias encontram-se em posição delicada. O pessoal está consciente das novas possibilidades oferecidas pela tecnologia da informação. Nota-se ainda a dificuldade de manter-se atualizado com os novos desenvolvimentos e tecnologias. Detecta-se um carência quase generalizada de recursos bem como necessidade de reestruturação. As universidades devem dominar seu conhecimento e encorajar a seu pessoal – docentes, pesquisadores e acadêmicos – a embarcarem em novas direções. É fato que as universidades já começam a disputar por espaço, competindo com algumas organizações que atuam com seu próprio corpo de trabalho.

Adicionalmente, tem-se que as universidades podem ser vislumbradas como provedores de serviço – a educação de qualidade. Daí, decorre questões como: as universidades estão oferecendo serviço de qualidade? Elas o estão fazendo de forma eficiente?

Infelizmente, as universidades têm sido criticadas em ambos aspectos. Maioria das universidades, principalmente as públicas não cobram mensalidades e com a redução crescente de recursos que lhe destinados, elas se vêem numa posição fraca para atuar eficientemente. Além disso, em diversas universidades, encontram-se salas de aulas com número elevado de alunos que acarreta num aproveitamento menor dos estudantes.

Percebe-se que para as universidades ofereçam serviço de educação com qualidade, é necessário ver e tratar os estudantes como clientes. Hoje em dia, vemos o uso da teleconferência para oferecer cursos a distância bem como a disponibilização de material on-line. Estas tecnologias permite a universidade atravessar fronteiras. Em tal cenário, note que os estudantes já não precisam se deslocar para outros centros ou países a fim de obter uma educação de qualidade. Assim, os estudantes poderão participar de curso e receber diploma reconhecidos internacionalmente. Tais estudantes estarão pagando elevadas taxas e serão tratados como clientes. Embora este cenário possa parecer futurista demais para alguns, pode-se dizer que não é. Não há muita escolha, ou a universidade torna-se global e retém seu status, e entra na competição por estudantes, professores e recursos, ou terá sua atuação restrita tanto em escopo como financeiramente.

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

     


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