Os Sem-Universidade e os Sem-Reajuste Salarial

 

Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor da Universidade Estadual de Maringá; doutorando na Faculdade de Educação (USP); autor de História das Tendências no Brasil. .


O último vestibular da Universidade Estadual de Maringá teve 15.402 inscritos, disputando 1.356 vagas. Considerando os números brutos, são 11,35 candidatos por vaga. É claro que a relação candidato/vaga depende de cada curso. De qualquer forma, 14.046 não passaram no funil. Resta-lhes optar pelo ensino privado ou fazer nova tentativa em janeiro.

Este é um quadro que se repete por todo o Brasil. A tendência é a concorrência aumentar. Um número maior de jovens conclui o ensino secundário. O governo alega não ter recursos para investir no ensino superior – o que inviabiliza a expansão de vagas conforme a demanda. A solução passa a ser a expansão da rede privada de ensino – facilitada pelo MEC. Na lógica governamental, se não há recursos, privatiza-se. Foi assim com as rodovias. Só falta fazer o mesmo com o ensino público: cobrar pedágio, taxas para estacionar etc.

É contra tudo isto que um grupo de jovens, apoiados por discentes e docentes da UNICAMP, USP, organizações não governamentais, pastorais e movimentos populares lançou o Movimento dos Sem-Universidade. A idéia partiu de dom Pedro Casaldáliga e encontra respaldo na dura realidade dos milhares de jovens que ficam fora das universidades públicas.

São vítimas de uma estrutura perversa que escolhe os escolhidos. Ao contrário do que prega o mito liberal, as oportunidades não são iguais para todos. A insuspeita Folha de S. Paulo, em editorial, reconhece que há uma ‘situação de iniqüidade’: “Assim, são os alunos das escolas particulares – pagas – os que normalmente conquistam as vagas – gratuitas – da universidade pública, que constitui a elite do ensino superior brasileiro”. (FSP, 25.07.01)

Há alguns anos, trabalhei na periferia de S.Paulo (num bairro de Santo Amaro) e em Diadema. Angustiava-me ver que, para a maioria daqueles jovens, o ensino médio não oferecia perspectivas a não ser a ilusão da formatura. Doía-me ainda mais saber que tinham consciência de que a USP, UNICAMP, a UNESP não foram feitas para eles.

É um círculo vicioso: os que se encontram na base hierárquica da sociedade formam-se em escolas públicas, em geral, de baixa qualidade. Os filhos da classe média e dos ricos estudam nas melhores escolas privadas e possuem mais capital cultural e econômico, isto é, acumulam melhores condições para vencer a olimpíada do ensino público. No final das contas, são os mais abastados que ocupam as vagas das universidades públicas. A classe média remediada vai para o ensino privado. Os pobres que se virem.

É óbvio que há exceções e que quanto menos concorrido o curso maior a chance de furar o bloqueio. É que tem uns teimosos que, a despeito de tudo e de todos, superam a si mesmos e às estruturas vigentes. Mas, não nos enganemos: a universidade não foi criada para os pobres. Uma boa medida é observar as estatísticas sobre o número de acadêmicos e professores negros em nossas universidades.

O MSU é uma excelente idéia. Por que não apóia-la? A última greve dos servidores mostrou o quanto estamos isolados da sociedade. Parece que as pessoas não reconhecem a importância social, econômica e política da universidade pública. Ora, se a Universidade é inacessível para a maioria, é compreensível que seja assim. A greve pela greve, sem o envolvimento da comunidade externa, mostrou-se ineficiente. O governador, diante do movimento das esposas dos policiais, já deu o recado. O discurso é o mesmo do ano passado: a lei de responsabilidade fiscal não permite reajuste salarial.

Seremos mais fortes se a comunidade assumir a Universidade como um problema que lhe diz respeito.Devemos apoiar iniciativas como o MSU. Além de solidariedade, trata-se de pensar a universidade a partir de uma perspectiva social e não-elitista.

 

 

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA

     

 


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