O Secretário, os Doutores e o Ensino Superior no Paraná

 

Por ANGELO PRIORI
Doutor em História, é presidente da Associação dos Docentes da UEM (Aduem)

Os professores das cinco universidades mantidas pelo erário público paranaense receberam, no final do mês de julho, uma carta assinada pelo Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná, Ramiro Wharhafting, onde o mesmo faz longa apologia às políticas de ensino superior do governo Lerner. Segundo o Secretário, depois que o grupo lernerista assumiu a direção do Estado do Paraná, em 1995, os investimentos nas universidades estaduais quintuplicaram, o que permitiu, entre outras coisas, aumentar em três vezes nesse período a quantidade de professores com títulos de doutor. Os dados apresentados pelo Secretário naquela carta são todos passíveis de discussão (que já fiz em outro espaço) porque não condizem com a realidade do ensino superior paranaense.

Mas um dado é correto: realmente, nos últimos anos, os professores paranaenses tem se especializado cada vez mais, e parcela considerável do corpo docente possui título de doutorado, muitos professores inclusive, participou de estágio de pós-doutoramento no Brasil e no Exterior. Se o dado é correto o argumento não é. Por dois motivos, inerentes a esse fato: a distribuição dos doutores não é eqüitativa pelas IES e a política de capacitação docente pouco tem haver com o governo do Estado do Paraná.

No Paraná, o sistema público de ensino superior é formado por cinco universidades e 11 faculdades isoladas. As Universidades de Londrina (UEL), de Maringá (UEM) e de Ponta Grossa (UEPG) foram criadas no início dos anos 70; a Unioeste (com sede em Cascavel) e a Unicentro (com sede em Guarapuava) foram criadas quase 20 anos depois. A história das faculdades é tão diversa quanto as cidades que as localizam. No entanto, dessa rede de ensino superior, duas universidades concentram quase 80% dos professores com título de doutor: a UEL  e a UEM. Exatamente as duas universidades que investiram em uma política de capacitação rigorosa e continuada, desde os anos 80. As demais instituições só agora se despertam para essa necessidade. Nas faculdades, a capacitação docente ainda está engatinhando e os poucos mestres e doutores existentes naquelas instituições isoladas não recebem o incentivo à titulação, num claro desrespeito ao Plano de Carreira instituído em 1997.

Porém, a capacitação docente tem sido feita através de um esforço coletivo dos próprios professores. Enquanto um professor está afastado para fazer curso de mestrado, doutorado ou estágio de pós-doutoramento, outro professor do mesmo departamento, assume os seus encargos de ensino, de pesquisa e de orientação de alunos, numa troca de esforços e solidariedade que tem proporcionado um espetacular aprimoramento coletivo do corpo docente. Portanto, somente em raras exceções, é contratado alguém para substituir algum professor afastado para pós-graduação. 

Outro fator importante, que tem proporcionado essa capacitação tem sido as ações das agências de fomento, sobretudo o CNPQ e a CAPES. Essas duas instituições, que recentemente completaram 50 anos de atividades, tem sido o fio condutor da produção científica, tecnológica e das políticas de formação de pesquisadores do país. O CNPQ tem direcionado seus esforços no fomento da pesquisa básica e aplicada e em bolsas para alunos de Iniciação Científica, de mestrados e de doutorados. E a CAPES, através dos seus Programas Institucionais de Capacitação Docente (infelizmente, nesse ano extinto), de Demanda Social e de Fomento à Pós-Graduação, tem dado uma valiosa e significativa contribuição para a formação de recursos humanos altamente qualificados. Para se ter uma idéia, nesse ano o número total de bolsas implementadas pela CAPES é de 20.734, sendo 11.818 nos cursos de mestrados e 8.916 nos cursos de doutorados, conforme dados da edição de julho da revista “Ciência Hoje”.  A CAPES tem contribuído com 53% das bolsas de pós-graduação. Já as bolsas do CNPQ e da FAPESP (a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) perfazem um todal de 40%. Devemos dizer que a Fundação Araucária (a Fundação de Amparo à Pesquisa do Paraná) não concedeu, até agora, nenhuma bolsa para mestrado ou doutorado (a menos que isso esteja sendo feito às escondidas, o que não acredito).

É evidente que nós, os pesquisadores paranaenses, esperamos que a Fundação Araucária, implantada há apenas dois anos, venha no futuro poder, de fato, contribuir com a capacitação docente do Estado, principalmente nas instituições de ensino superior mais carentes, sem perder, obviamente o objetivo de fomentar a pesquisa.

Essa tem sido a tônica da capacitação docente no Estado do Paraná. E o governo Lerner tem feito muito pouco para melhorá-la. Aliás, as universidades paranaenses estão vivendo o mesmo mal das federais: falta de investimento para infraestrutura, descaso com laboratórios e as bibliotecas, falta de salas de aulas adequadas, pouco investimento nos hospitais universitários e um longo arrocho salarial, que já se perpetua, por essas bandas das araucárias, por cinco anos.

 

ANGELO PRIORI

     

 


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