Eleições e Carisma

 

Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Doutorando em Ciências Sociais, Professor da PUC (MG) e Escola Superior Dom Hélder Câmara. Autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp) e Diretor da CPP Consultoria em Políticas Públicas

As mudanças econômicas e sociais dos últimos anos vêm alterando hábitos políticos que pareciam sedimentados em muitas partes do globo. Mudanças de comportamento político muito bruscas podem significar um choque cultural que abre caminho, muitas vezes, ao populismo e às lideranças aventureiras carismáticas. Parece que os sinais deixados pelas eleições ocorridas recentemente no Peru, Irã e Inglaterra apontam para alterações políticas muito significativas.

No Peru, Alejandro Toledo foi eleito sob acusações de se envolver com orgias e de ser um mentiroso compulsivo, o que possibilitou o crescimento da candidatura de Alan García, cunhada pela imprensa internacional de "populista de centro-esquerda". Seu discurso é extremamente contraditório. Por possui fortes vínculos com o mercado financeiro internacional, afirmou que atrairá investimentos estrangeiros, estará alinhado à política norte-americana e manterá a disciplinar fiscal. Contudo, Toledo chegou a prometer a redução de impostos ao consumidor, aumento de salário aos professores e isenção para empresas investidoras o que será de difícil combinação com a proposta de aperto fiscal. O discurso populista ronda suas intervenções públicas: incentivou, durante toda a campanha, uma comparação de sua persona com a do maior imperador inca, Pachacútec.

Na Inglaterra, Tony Blair reelegeu-se com o maior índice de abstenção desde a Segunda Guerra Mundial (37%). Fez a maioria do parlamento, mas não convenceu. Sua pauta de campanha sustentava a melhoria de condições de vida (sob sua gestão os 40% mais pobres tiveram sua renda inflada em 9%) ao lado da desregulamentação do mercado de trabalho e apoio ao setor privado. Seus temas preferidos, de uma agenda que hoje denomina de "Governança Progressista" são: requalificação profissional, educação continuada, violência relacionada ao tráfico de drogas, desenvolvimento sustentável, multiculturalismo e "digital divide" (relação entre novas tecnologias e antigas formas de comunicação). Blair chegou a ser apoiado pela revista The Economist e pelo jornal The Times por ser o candidato mais conservador (ele é trabalhista, a oposição histórica ao conservadorismo inglês). Ou seja, na prática tudo parece se confundir.

No Irã o presidente Mohamad Khatami consegui se reeleger com mais de 77% dos votos. Significa uma mudança profunda no conservadorismo muçulmano. Khatami é apoiado pela juventude e público feminino, que exigem as reformas iniciadas em seu primeiro mandato. Em seu último discurso de campanha, afirmou que "o Irã pertence aos jovens, que precisam de trabalho, habitação e liberdade", um ataque indireto ao clero conservador, que percebe seus movimentos para diminuir o poder da legislação islâmica (velayat-e faqih). No mundo muçulmano, as instâncias políticas são duramente cerceadas pelas instâncias religiosas. No Irã, o poder religioso permanece nas mãos dos conservadores. Controlam o judiciário e todo aparelho de segurança. A pressão popular pode empurrar o país para um confronto político histórico.

 

São exemplos esparsos, mas que demonstram algumas alterações importantes. Uma forte mudança no comportamento social do mundo oriental. Não apenas o Irã. No Japão, pesquisas recentes demonstram altos índices de corrupção e disputa  no interior do Estado. Desde 1996, as taxas de má conduta profissional  crescem vertiginosamente (aumento de 17% de casos ao ano, chegando a 2 mil casos em 1999).

Outro fenômeno é o do aumento do discurso carismático na política. Este é o caso dos EUA. Bush é considerado pela imprensa internacional como um presidente incapaz e despreparado. Mas seu estilo cowboy e sua extrema simplicidade caseira aparecem como forte alimento à popularidade. O sociólogo Richard Sennett já havia previsto este movimento político na década de 70. Os novos meios de comunicação, analisava, reforçam os vínculos emocionais da autoridade com os eleitores, mas desmobilizam a fiscalização popular. Em outras palavras, assistimos as campanhas pela televisão, criticamos, decidimos, mas não saímos da poltrona. A política torna-se um "bingo eletrônico", alçando ao estrelato políticos histriônicos. A política vai se consolidando como espetáculo. Num mundo em rápida mudança social, devemos compreender este espetáculo como extremamente perigoso. Enfim, nunca a dimensão pública aproximou-se tanto dos interesses privados.

RUDÁ RICCI

     

 

 


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