Necessidade da ideologia ao desinteresse ideológico pela história: marxistas e marxianos

 

Por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Sociólogo, Turismólogo, Professor da Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel

Nunca duvidei e também sempre o disse que o stalinismo é um tipo de destruição da razão". Somente não considero correto criticar Stalin apontando, onde pudesse ser descoberto, digamos, um eventual paralelo com Nietzsche, porque por esta via nunca chegaríamos à verdadeira essência do stalinismo. A verdadeira essência do stalinismo, no meu entender, consiste no fato de que, conservando teoricamente o caráter prático do movimento operário e do marxismo, na práxis a atuação não é regulada pela  mais profunda inteligência das coisas, ao contrário, essa mais profunda inteligência é construída em função da tática do agir. Em Marx e Lênin a linha de fundo do desenvolvimento social, que procede numa determinada direção, era assumida como dada. No interior desta linha de fundo se produzem continuamente certos problemas estratégicos. No interior destes últimos emergem em seguida toda vez os problemas táticos. Stalin inverteu esta seguência. Ele considera primordial o problema tático, e dele faz derivar as generalizações teóricas.

 

Georg Lukács. Diálogo sobre o "Pensamento Vivido" (Última Entrevista de Lukács) - extratos - Revista Ensaio de 1986, n.15/16. p. 62/63.

 

Algumas premissas sinalizam o debate que fazemos sobre o conceito de ideologia, como a entendemos, quais os teóricos que nos apoiamos e por que a eles fazemos questão de nos agasalhar teoricamente. Para levarmos adiante esse processo de compreensão  do conceito de ideologia, recorremos a Georg Lukács, que a define como expressão de um ato permanente e presente no cotidiano da vida social, para ele:

 A ideologia é acima de tudo aquela forma de elaboração ideal da realidade que serve para tornar a práxis social dos homens consciente e operativa ... Neste sentido, toda ideologia tem seu se-precisamente-assim social: ela nasce direta e necessariamente do hic et nunc social dos homens que agem socialmente na sociedade.  [1]   

Necessitamos entender que a mesma não pode ser vista somente como  " ... um instrumento de dominação de classe e, como tal, sua origem é a existência da  divisão da sociedade em classes contraditórias e em luta" [2] , como assim, define Marilena Chauí em seu livro: o que é Ideologia  que  tornou-se a leitura básica sobre o assunto. Mas sim, resultado da atividade humana que esta presente em todas as ações dos homens, seja de uma ou outra classe social em todo e qualquer modo de produção existente na realidade.

Com  isso o conceito de ideologia ganha uma dimensão diferente daquela que a maioria dos interpretes marxistas da academia ou dos grupos políticos - partidários  fizeram com a obra de Marx . Um instrumento de banalização e negação da própria teoria em favor de uma exacerbada objetivação da prática partidária como o instrumento capaz de buscar a emancipação humana. Bem como, alguns mais ousados, procederam à falsificação de suas idéias, seja por acréscimos ou omissões utilizando um processo de apreensão do real via a naturalização histórica, criando uma casta de marxistas iluminados que acompanhando a evolução do mercado acadêmico podem ser classificados de modistas.

Esses caronistas e deformadores da verdadeira ontologia marxiana* fizeram do pensamento de Marx, campo de experimento de suas racionalidades independente do conteúdo e axiomas explicitados pelo mesmo. Nesse sentido, podemos afirmar  que esse procedimento demonstra que os marxistas sempre tiveram o hábito e a liberdade de interpretar a obra de Marx segundo os limites  dados pelas internacionais e do partido comunista. 

... autores influenciados por Marx han realizado fundamentales trabajos científicos, aportaciones decisivas como historiadores, sociólogos, economistas, antropólogos, psicólogos, pedagogos y en otras ramas de la ciencia y de la cultura, pero se tratan de esfuerzos ajenos a la producción industrial de una vulgata marxista para uso masivo, controlada política y policialmente por los comités centrales. [3]

O estrago feito pelos marxistas à Marx foi profundo, esqueceram-se da necessidade de preservar os princípios  teóricos em troca do imediatismo políticista como assim, diria um dos seus melhores leitores o filosofo José chasin.

Muitos se diziam marxistas por modismo ou interesses político-partidário, mas poucos permaneceram fiéis à Marx. Há casos  em que  tornam-se ferozes inimigos ou até extremados apologistas do anti-marxismo, de ortodoxos passaram a seguidores messiânicos do neoliberalismo ou fundamentalistas do existencialismo..

Essa crise de princípios aliados à fragilidade ideológica da maioria dos defensores do marxismo, demonstra um conhecimento inconcluso sobre as obras de Marx , levando muitos a um processo de dissidência no campo partidário e acadêmico. Ao grande intelectual do século sobraram as frases montadas junto  a uma nova intelectualidade que acredita estar Marx ultrapassado e ser este o fim da história.

Na verdade existiram e continuam a existir interpretações da obra de Marx, que contribuem para seu próprio desconhecimento ou resultaram em algumas derivações de raiz positivista . Em uma passagem de uns dos melhores trabalhos  existentes sobre a vida de Marx a historiadora cubana Paquita Armas Fonseca,  faz os seguintes comentários:

Plagiado, incomprendido, tergiversado, dividido en el Marx joven y el Marx viejo, en el siglo XX, aún en vida comenzó a percibir las malas interpretaciones que se hacían de su teoría. Com un grado de cólera comprensible - se trataba nada menos que de sus yernos - el 11 de noviembre del 82 le escribía a Engels: "i Que se vayan al diablo Longuet, el último proudhoniano, y Lafargue, el último Bakunista!". [4]

Em seguida a autora destaca uma carta que Paul Lafargue recebe de Engels em 27 de outubro de 1890, contendo as seguintes afirmações:

Há habido revueltas de estudiantes, literatos y otros jóvenes burgueses desclasados se han lanzado al partido, han llegado a tiempo para ocupar la mayoría de los puestos de redactores en los nuevos periódicos que pululan y, como de costumbre, consideran la universidad burguesa como una escuela de Saint Cyr socialista que les da derecho de entrar en las filsa del partido com el título de oficial, si no de general. Estos señores practican todos el Marxismo, pero de la especie que se conoce en Francia desde hace diez años, y del que Marx decía: "Todo lo que sé es que yo no soy marxista." Y  probablemente diría de estos señores lo que Heine decía de sus imitadores: "Sembré dragones y coseché pulgas." [5]

Na citação acima Marx, coloca-se contra aqueles que em seu nome interpretam sua obra de forma pessoal e determinista, transformando o materialismo histórico em um sistema generalizador e aplicável à qualquer situação. Uma perfeita mecânica da vida que permitiria em si entender que havíamos alcançado um conhecimento perfeito. Essa pretensão tornou a maioria dos marxistas grandes  negadores da história é alquimistas de profissão no trato da realidade social, divulgando os "avanços" alcançados no interior das sociedades chamadas socialistas.

No campo da critica a esse socialismo, aparece Georg Lukács, o mais contundente e capaz contra os que vinham banalizando e destruindo Marx e tornando o partido comunista em órgão policialesco.

Poucos conseguiram permanecer imunes à critica das estruturas partidárias locais e internacionais, os mesmos foram perseguidos, censurados, execrados. Os sobreviventes ficaram com seguelas e necessitaram para sobreviver de impor seus estudos críticos em relação ao partido e aos axiomas básicos do marxismo vulgarizado.

O SINALIZADOR DA  CRÍTICA ÀS SOCIEDADES PÓS-CAPITALISTAS  - GEORG LUKÁCS.

Quem era Lukács? Segundo Leandro Konder foi um intelectual, militante     e objeto de perseguição:

"Entre os stalinistas, ... de anátemas furiosos e rejeições peremptórias ... cujo nome se tornou sinônimo de 'desvio' e 'revisionismo'  [6] ". Em entrevista realizada pelo mesmo á Lukács na cidade de Budapest em1969, afirma:

Na raiz de nossa crise, está uma modalidade de oportunismo que é, talvez, a mais grave das deformações que nos deixou Stalin: o taticismo. Ao invés de utilizarmos os princípios teóricos gerais do marxismo para criticar e corrigir a ação prática, subordinamo-los mecanicamente, a cada passo, às necessidades imediatas, às exigências momentâneas de nossa atividade política. Com isso renunciamos a uma das conquistas fundamentais da perspectiva marxista: a unidade de teoria e prática. A teoria fica reduzida à condição de escrava da prática e a prática perde sua profundidade revolucionária. Os efeitos de semelhante situação são catastróficos. Hoje em dia, infelizmente, todos os PCs são mais ou menos taticistas. [7]

Apontando sempre para uma crítica severa às imposições do partido, denunciando  as aberrações que eram cometidas no pensamento de Marx, como também,  aos companheiros comunistas que estavam tangênciando para um desvio ou negação  do próprio marxismo.  Georg Lukács foi criticado por vários  intelectuais de expressão política e acadêmica* dentre esses, o filosofo polonês Adam Schaff que quando esteve em João Pessoa na Universidade Federal da Paraíba em  março de 1982 e em entrevista concedida a revista Ensaio**, faz uma serie de comentários  sobre Georg Lukács.

Em primeiro lugar, o professor  Schaff (1913) em 1982 estava  para completar 70 anos e possuía  um domínio exemplar da língua espanhola, o que facilitou o contato com os colaboradores da revista. Em sua entrevista admite que Lukács foi "  ... vítima do stalinismo em determinado sentido" [8] . E em seguida faz uma defesa de Stalin,  procurando minimizar os crimes por ele cometido, insinuando que os mesmos ocorreram em virtude da geração pós - revolucionária, como relatado na citação abaixo:

Ele criticou, falou contra o stalinismo, mas trazia todo um ponto de vista de uma geração. Ponto de vista que não era somente de Stalin, enquanto indivíduo, mas ponto de vista de uma geração na euforia da pós-revolução. E isso é o mais perigoso, porque as coisas feitas pelos indivíduo Stalin não são tão graves. As coisas foram feitas pelo movimento, cuja emanação foi Stalin. Não esqueçamos, ele foi o grande herói, as suas idéias foram a emanação do melhor de toda uma geração, dentro da atmosfera de toda uma época [9] .

Adam Schaff, apesar de sua luta como "... combatente marxista do anti-stalinismo ... ", como assim se refere José Chasin, afirmando com muita percepção e ressonância teórica que:

Adam Schaff é bem uma expressão do universo de tendências e problemas do marxismo contemporâneo: dos esforços por sua reconstrução, da crise que o transpassa e dos descaminhos velhos e novos que o habitam. [10]

As observações de Schaff para com Lukács são claras e bem sinalizadas,  decorrentes da encruzilhada teórica presente no interior de seu pensamento , com nítidos sinais stalinistas que enxergam todos aqueles que passaram a criticar o partido de revisionistas. Considera Lukács  "um grande filósofo marxista, porém produtor de coisas falsas e" ... ligado ao humanismo alemão, principalmente a Hegel, e isto é a sua maldição, apesar de sua autocrítica, ele está totalmente embebido nesta filosofia alemã" [11] .

As críticas a Georg Lukács  por parte de Adam Schaff, naquele período  continuaram  e em 1995, no mês de abril, tive o privilégio de acompanhar uma serie de palestras sobre a nova esquerda e o socialismo real na Universidade nacional - Heredia na Costa Rica na qual estava como professor visitante. No qual Schaff, quando questionado por mim sobre a importância de hoje aprofundar a leitura das obras de Lukács, respondeu asperamente que esse filósofo, nada tinha a contribuir para a filosofia marxista.

As exposições de Schaff ficava claro sua agressividade para com Lukács e certa visão preconceituosa toda vez que era questionado sobre o papel da América Latina para o movimento de esquerda. Até que em uma das últimas exposições, questionado por seus antigos alunos de pós-graduação durante uma de suas exposições, fizeram-lhe a seguinte pergunta: Qual seria o papel da América latina na constituição da nova esquerda. De forma rápida e sem qualquer receio respondeu que nenhum. Esse foi um momento de extremo constrangimento por parte dos participantes que permaneceram calados e em seguida esboçaram algumas reações de indignação e mal estar.

Essa visão etnocentrista parece ser ainda determinante para alguns intelectuais europeus, há um desconhecimento de atualidade sobre o outro lado da linha do equador, pois muitos acreditam que por termos incorporado a civilização ocidental e decretado a morte de nossos antepassados, permanecemos dependentes do pensamento colonialista. Não seria este um dos pressupostos que sustentam ainda o stalinismo?

Mas apesar, de tudo isso, podemos dizer que a contribuição intelectual de Adam Schaff deve ser reconhecida no campo metodológico e da teoria do conhecimento, apesar de seus equívocos estarem localizados na " ...  concepção geral do marxismo e à sua problemática metodológica: Schaff compreende o marxismo, fundamentalmente, como um integrador de conteúdos, na continuidade histórica de uma grande linha de pensamento ... " [12]

CONCLUSÕES PRELIMINARES

Começamos com uma das conclusões extremamente oportunas escritas por Georg Lukács em seu livro “El asalto a la razon”, quando afirma que” Una de las tesis fundamentales de este livro es la de que no hay ninguna ideologia inocente. Mas uma vez Lukács por ser uns dos guardiões mais combativos e competentes na defesa do pensamento de Karl Marx, onde sua preocupação se estende em fazer uma analise ontológica, preservando o valor da racionalidade e o embate para com o  irracionalismo. Consegue dar ao pensamento de Marx uma originalidade que havia sido perdida e separa os marxistas de moda dos marxianos, abrindo um novo campo para os leitores das obras de Marx.

No campo do estudo da ideologia, percebemos que aquele velho e desgastado jargão que afirmava ser a ideologia essencialmente um instrumento de dominação de classe  e resultado de uma leitura equivocada das obras de Marx. Poucos tem essa consciência, mas alertamos que ideologia na verdade deve ser entendida como a forma de idealmente conceber a realidade e sinalizador da praxis social dos homens de forma consciente e altamente operativa.

Neste sentido, tudo que fazemos é consciente, isto é, tem um movimento histórico que independente de ser de classe é social, pois apresenta um valor teleologico  que só a racionalidade e a razão social dos homens pode configurar e portanto ser da natureza humana.

Apesar de nossa modesta contribuição para o estudo da ideologia, esperamos que surjam outras para que a academia possa detonar um processo de reflexão e estudo sobre essa temática polemica e estigante.

_____________________
[1] VAISMAN, ESTER. O problema da ideologia na ontologia de G.lukács. João Pessoa,1986.IIp. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Faculdade de Filosofia, Universidade Federal da Paraíba.
[2] CHAUÍ,M.S. O que é ideologia? Coleção primeiros passos. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1984, p.102.
* Se entende por referencia marxiana a leitura feita das obras de Marx segundo a interpretação de George Lukács.
[3] SÁENZ, Luis M. Marx sin marxismos. P.1 - http://www.geocities.com/Atnens/Acropons/1664/marx.ntm.
[4] ARMAS FONSECA, Paquita. Moro: El Gran Aguafiestas . Editorial Pablo de Torriente, la habana, 1989, Cuba, p. 131.
[5] Idem, P.132 (grifo nosso).
[6] KONDER, Leandro. Lukács. Rio Grande do Sul - L & PM Editores Ltda, 1980. p. 14.
[7] GEORG, Lukács. A autocrítica do marxismo. In: Revista Temas de Ciências Sociais. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas LTDA., 1978, p. 19-25.
* Estudo detalhado sobre isso esta no livro já citado de Leandro Konder. A nós cabe acrescentar um teórico de prestigio mundial o filósofo polonês Adam Schaff o qual tivemos o privilegio de conviver durante dez dias na Universidade Nacional-UNA de Heredia - Costa Rica.
** A Revista Ensaio, publicação trimestral na área da sociologia, política, história e filosofia, desenvolvia estudos no campo da história do pensamento burguês brasileiro, como também,  sobre a obra de Marx e Lukács. Saiu de circulação em 1993 e se preparava para retornar em 1999, com outro nome, quando em 30 de dezembro de 1998 faleceu seu idealizador um dos mais competentes filósofos do Brasil o professor José Chasin.
[8] CHASIN, José. et al. Contra o stalinismo e a alienação. In: Revista Escrita - Ensaio, n.10, São Paulo: Editora e livraria Escrita, 1982, p. 96.
[9] Ibidem., p.96.
[10] Ibidem,. p. 26.
[11] Ibidem,. p.101/102.
[12] Ibidem,. p. 26.

 

JOÃO DOS SANTOS FILHO

     

BIBLIOGRAFIA

ARMAS, Fonseca. Paquita. Moro: el gran aguafiestas. Havana: Editora Pablo de la Torriente, 1989.

CHAUÍ, M. S. O que é Ideologia? São Paulo: Ed. Brasiliense, 1981.

CHASIN, José. Contra o Stalinismo e a Alienação. São Paulo: Editora Nova Escrita/Ensaio n.º10, 1982.

LUKÄCS, Georg. Diálogo sobre o “Pensamento Vivido”. São Paulo: Editora Ensaio n.º 15/16, 1986.

LUKÄCS, Georg. A autocrítica do marxismo. Revista Temas n.º4. São Paulo: Editora de Ciências Sociais, 1978.

KONDER, Leandro. Lukács. Porto Alegre: Ed. L&PM, 1980.

SÁENZ, Luiz. M. Marx sin Marxismos.

VAISMAN, Ester. O problema da ideologia na ontologia de G. Lukács. Tese de mestrado  apresentada no mestrado de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba, 1986.

 


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