COMUNIDADE DO BATOQUE LUTA E RESISTE PARA SOBREVIVER AOS INTERESSES DOS CORONÉIS DO TURISMO

 

Por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Sociólogo, Turismólogo, Professor da Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel

“...  é o “coronel”, que comanda discricionariamente um lote considerável de votos de cabresto. A força eleitoral empresta-lhe prestígio político, natural coroamento de sua privilegiada situação econômica e social de dono de terras. Dentro da esfera própria de influência, o “coronel” como se resume em sua pessoa, sem substituí-las, importantes instituições sociais. Exerce, por exemplo, uma ampla jurisdição sobre seus dependentes, compondo rixas e desavenças e proferindo às vezes, verdades arbitramentos, que os interessados respeitam. Também se enfeixam em suas mãos, com ou sem caráter oficial, extensas funções policiais, de que freqüentemente se desincumbe com a sua pura ascendência social, mas que eventualmente pode tornar efetivas com o auxílio de empregados, agregados ou capangas”. (Vitor Nunes Leal. Coronelismo, enxada e voto –1975 ).

 

Durante o processo de colonização ocorrido no Brasil a presença física e mental dos portugueses acabaram provocando um holocausto da população nativa e impondo a cultura da submissão e obediência. Essa particularidade gerou a  recomposição de uma nova sociabilidade que envolveu o gentio da terra, negro, português e o europeu em geral  é nessa relação de reordenação cultural que encontramos a riqueza de nosso povo.

Entender nossa idiossincrasia  é deixar que a história flua e direcione sua tencionalidade natural do homos Brasilianos, com um passado traumático para a população escrava e indígena que perderam sua cultura e viram destruída  hegemonia política, econômica e social  que possuíam enquanto império. Hoje estamos sofrendo um novo processo de recolonização, muito mais devastador e profundamente sagaz para a perda de nossa segunda identidade cultural.

Nesse sentido, devemos entender que o processo histórico no qual fomos e somos objeto contêm em seu interior a lógica do expancionismo do Capital, onde a luta pela sobrevivência é tão crua e brutal que percebemos que ainda estamos vivendo em um país que esta loteado pelo interesse dos coronéis latifundiários e grileiros que conseguem atuar nas brechas e falhas da lei da terra da sociedade brasileira e muitas vezes com o apoio de estruturas institucionais.

Os descendentes desse rico processo de miscegenação nos deram uma singularidade bio-psico-social que nos diferencia de todos os outros povos, pois herdamos a sabedoria milenar dos gentios da terra, a garra e resistência dos africanos mescladas a riqueza da cultura alemã, italiana, portuguesa, espanhola, ucraniana, polonesa e japonesa, esse  se constituí o composto de nossa singularidade cultural.  Como produtos desse sincretismo, temos a comunidade do Batoque  localizada na comarca de Aquiraz na região litorânea do Estado do Ceará.

Essa comunidade formada de pescadores e pequenos comerciantes de praia se constituí em um povo que vive em harmonia com a natureza formando um polo de resistência contra os interesses imobiliários e empresariais de grandes grupos nacionais e internacionais preocupados em implementar seus recursos financeiros naquela região. A força desse povo esta personificada na presidente da associação dos moradores do batoque a líder comunitária Maria Odete Carvalho Martins que já sofreu por parte do “chamados coronéis do turismo”, várias ameaças, atentados e inúmeras tentativas de suborno.

Segundo Odete o povo do batoque não quer perder suas terras e nem ser obrigado a viver no manguesal  e morrer de fome. No batoque a população interage com o  ecossistema a pesca, agricultura e o artesanato sustentam adultos e crianças, não queremos ser enganados como foi todo o povo de Aquiraz, quando da criação do Beach Park. Queremos sim, que nos respeitem em nossas condições de sobrevivência e não nos tirem as formas que possuímos para viver: qual estrutura turística de fora de nossa comunidade vai empregar um negro, desdentado e analfabeto?. Sabemos que os grandes empreendimentos aparecerão, pois o poder político e financeiros de Iviz Branco e Odebrecht são imensos, mas intransponíveis são nossos ideais de união comunitária de não permitir que nos tratem como ignorantes e gente do mato. Basta que nossos antepassados foram mortos e caçados como animais, somos cidadãos brasileiros, filhos de índios e africanos que lutam para manter sua própria terra.

Não somos contra o progresso como assim sempre nos acusam, mas sim, queremos poder conviver com esses equipamentos desde que, possamos produzir uma agricultura orgânica que tem venda garantida, explorar um tipo de turismo alternativo local e regional, profissionalizar nossos filhos como guias locais e evitar que os intermediários atravessem o preço de nosso artesanato.

A comunidade do Batoque pede auxilio para Associação Brasileira de Bacharéis de Turismo - ABBTUR do Ceará e nacional para que entendam seus problemas e os ajude a preservar sua comunidade, não podemos, sofrer os males de uma outra colonização.

 

JOÃO DOS SANTOS FILHO

     

 


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